: : Opinião
“Sou travesti e mereço o luxo!”:
Verônica decide viver e muito bem!
Publicado em 10.02.08 : : Andrea Stefanie, especial para o ParouTudo

Tomando emprestado o título de um dos livros de Paulo Coelho (a despeito de todas as críticas que tenhamos sobre sua discutível obra) tive a idéia de falar sobre um daqueles assuntos que achamos polêmicos em razão dos sujeitos envolvidos: a vida de sucessos e conquistas de uma travesti (com o artigo feminino, pois é assim que se refere quando fala de si mesma) que nunca deixou de ser quem é e não acreditou no fracasso presumido por ser travesti, nem nos lugares “normais” para uma 'trans' freqüentar.

Essa minha brilhante e obstinada amiga, contrariando o senso comum sobre 'comunidades minoritárias' e 'sujeitos excluídos', deu a volta por cima abandonando a prostituição e os 'submundos' que se acreditam naturais a pessoas como ela, decidindo que teria planos para o futuro e os colocaria em prática.

Conheci a Verônica Basílio numa noite de maio de 2000. Estava fazendo uma reportagem sobre prostituição para uma revista de quinta categoria e, sem nenhuma prática do riscado de jornalista, me aproximei dela. Encantadoramente e com a sabedoria de uma pessoa bem vivida, ela respondeu todas as minhas perguntas naquela noite.

Voltei mais algumas vezes, perguntei outras coisas e a cada novo assunto, mais surpresas. Uma das grandes revelações foi saber que ela odiava a prostituição e definitivamente não se via nela. Ela dizia que estava 'apenas de passagem'. Verônica havia decidido viver e correr os riscos de enfrentar um mundo hostil e preconceituoso. Ela seria uma travesti feliz e realizada profissionalmente contrariando tudo que essa porcaria de sociedade deseja para ela e para qualquer um que, como ela, pertença às 'comunidades abjetas'. Ela teve coragem, obstinação e sangue frio para desafiar e se realizar pessoalmente.

Pois bem, somos melhores amigas (e sou cliente dela, também!) e, conhecendo um pouco o universo das travestis, percebo que ela conseguiu chegar aonde queria. Atualmente, Verônica é dona de um salão de beleza em Planaltina, tem um yorkshire, três passarinhos, uma residência confortável, muitos amigos e sua casa está sempre cheia de gente.

Ela é uma empresária de sucesso alçando vôos maiores (pretende ter uma rede de salões de beleza em Planaltina - DF) e nunca mais fez sexo pago. É amada na vizinhança e seus conselhos sobre moda, atitude e cabelos são ouvidos por todos. Ela é uma amiga-conselheira sempre disposta a ouvir e ajudar seus amigos. Inclusive a mim. Perdi as contas de quantos conselhos e abraços ela me deu. E todas as vezes que a gente se fala ela me diz: - “eu te amo”. Eu não saberia o que fazer sem a amizade (e sem o tratamento capilar) da Verônica.

Se você leu esse artigo achando que eu iria falar sobre os 'contos de alcova' ou práticas sexuais de uma travesti e seus clientes, ou sobre o número de travestis rejeitadas pela família e arruinadas pelas drogas, esqueça! Verônica nunca chegou perto de nenhum entorpecente e sua mãe e irmãos, que a amam muito, a chamam freqüentemente de 'Verônica'. E ainda está procurando mais amigos e parcerias profissionais.

Com frases significativas como: - “sou travesti e mereço o luxo e o melhor que a vida tem de bom!”, Verônica finaliza minha nova cor e corte de cabelos afirmando que ainda tem muito a fazer por ela mesma e seus amigos. Então, quem quiser saber mais sobre ela, eis o link do perfil no Orkut.

E eu termino esse artigo sentenciando que, em comum com o título daquele livro e das histórias de horror sofridas por travestis, ela só guarda o nome e a identidade de gênero de travesti.

Verônica vive, e muitíssimo bem!

*Ilustração: Paul Gilligan

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