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Andréa Stefanie: ícone trans enche DF de orgulho
Publicado em 29.01.08 : : Sarah Campo Dall Orto

Ser justa e buscar a justiça a qualquer momento é sem dúvida a maior qualidade da feminista Andréa Stefanie. Mulher transexual, ela se descobriu assim aos cinco anos de idade. Brasiliense, a estudante do curso de Direito acumula as funções de pesquisadora e coordenadora do núcleo de Travestis, Transexuais e Transgêneros da ONG Estruturação. Já morou na Suíça, é vaidosa e atualmente tem um sonho: conseguir projeção através de um cargo público.

Andréa admite que as coisas ao longo da vida não foram fáceis – foi profissional do sexo durante dois anos – mas se considera uma mulher privilegiada. Além de nunca ter sofrido qualquer tipo de agressão física, teve a sorte de ter pais que não a trataram como uma aberração ou tentaram modificá-la de maneira violenta, questão fundamental para ela.

A militante está satisfeita com a recente exposição que a causa transexual tem obtido como conseqüência de filmes como 'Transamérica' e na série 'Nop Tuck', mas faz ressalvas: "A transexualidade agora vende jornal e está na pauta, mas é preciso olhar com muita sensibilidade e muito respeito para esse assunto. Qualquer deslize, qualquer preconceito enrustido pode ser perigoso".

O ParouTudo se encontrou com Andréa e, neste 29 de janeiro (data desde 2006 considerada Dia Nacional da Visibilidade Trans), publica a conversa franca em que ela falou sobre militância, preconceito, política e vida real. Parafraseando o editor-chefe do ParouTudo Thales Sabino em depoimento na Câmara Legislativa do DF, "Que bom seria se existissem outras 'Andreas Stefanies' em todos os setores da sociedade, não apenas no ativismo LGBT".

Como aconteceu a descoberta da sua verdadeira identidade?

Sempre me senti mulher apesar de minha genitália masculina. Isso significa que gênero e papel social não se misturam com sexo genital. O sexo para mim é o conjunto da obra. Genitália é uma marca da biologia e gênero é a marca da cultura. Identidade não tem nada a ver com orientação sexual. Abandonei a escola com apenas 12 anos porque não suportava os atos de violência contra a minha feminilidade, sobretudo por ser chamada pelo meu nome civil. A escola, infelizmente, foi um local muito traumatizante para mim e tive uma juventude muito fragilizada. Meu momento de transformação ocorreu por volta dos quinze anos de idade.

E como você lidou com o preconceito?

Eu nunca tive grandes conflitos comigo, é o contato com a sociedade que provoca o mal-estar. Para nossa sociedade que insiste em não aceitar que é múltipla, é importante dizer que eu não fico por aí anunciando a minha transexualidade. Não sou só eu a diferente, vivemos em um mundo plural, mas as pessoas não querem enxergar isso simplesmente porque têm medo de se descobrirem uma mulher como eu ou ainda excitadas por um travesti ou uma transexual. O dia em que a sociedade brasileira perceber que não existe essa homogeneização de pessoas e começar a entender que devemos ser respeitados dentro de nossas desigualdades, aí sim, poderemos nos entender como uma democracia.

Operação de readequação de sexo ainda é tabu?

No exterior são feitas há mais de cinqüenta anos. Eu pretendo fazer a minha operação, mas só depois que tiver mudado meu nome masculino. A readequação genital é um momento íntimo, e é um procedimento que eu não quero fazer aqui no Brasil. De modo geral a América Latina possui uma baixa qualidade quando o assunto é esse tipo de cirurgia.

Quando você entrou para a militância LGBT?

Entrei na militância há quase cinco anos, mas confesso que antes de aderir ao movimento achava tudo chato. Queria soluções instantâneas, mas aos poucos entendi que às vezes essas não são as melhores saídas. Aconteceu depois de uma grande decepção na qual me foi negado o direito de fazer a cirurgia de readequação concedida pelo Ministério Publico, e por causa desse 'não', fiquei quase um ano em depressão. Superei e entrei na militância.

Que importância ela tem hoje na sua vida?

Foi na militância que percebi que só conseguiria mudar toda essa situação de exclusão quando começasse a lutar por meu espaço e pelos direitos da comunidade das mulheres transexuais. A militância para mim está baseada em gênero, ilegalidades e discussões sobre a feminilidade. Uma coisa que aconteceu comigo durante essa luta foi que eu me aproximei muito da comunidade das travestis. Sou vista hoje em Brasília pelas travestis como símbolo e sinto-me lisonjeada em ser uma representante desse grupo. Ao mesmo tempo hoje sou uma das poucas transexuais que é convidada para fazer participações em congressos, debates e eventos de mulheres.

O que você achou da decisão da juíza Helen Gracie de retirar a cirurgia de readequação de sexo do programa do Ministério Público?

Fiquei muito decepcionada do ponto de vista do feminismo. Eu entendo o que ela alegou, porém não concordo. Ela disse que poderiam faltar recursos para outras áreas. Impossível. Pago os impostos para usar a saúde pública e não uso, esse dinheiro poderia muito bem ser utilizado na minha cirurgia. Porém, o que mais me entristeceu foi que em nenhum momento ela deu voz à comunidade transexual. O posicionamento oficial do Ministério de Saúde é que vai ser possível fazer a cirurgia pelo SUS. Isso foi uma grande vitória democrática.

Como você vê a prática que tem sido aplicada no DF de prisão de travestis profissionais do sexo 'em bloco' durante as madrugadas?

Não somos ingênuos, não é uma coisa benéfica para as travestis como se tem dito. Sabemos que não é isso que acontece de fato. Então levam-se as vítimas para tentar dar um respaldo para a sociedade. É no mínimo podre, quase uma alusão ao nazismo e a higienização de minorias que culminou com a morte de milhões de judeus. A questão toda é que o problema das drogas não tem origem na comunidade das travestis e das profissionais do sexo. É algo muito maior e todos sabem disso. A única coisa que querem é retirá-las do centro de Brasília para vender hotel. E depois nem pensam em dar outras oportunidades de trabalho.

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