: : Opinião
Os homens e a sociedade no divã
(relatos de um front de batalhas)
Publicado em 01.01.08 : : Andréa Stefanie*

Amigas (os) feministas, tenho péssimas novas a trazer sobre as lutas pela igualdade de tratamento social aos gêneros.

Teremos que queimar ainda muitos milhares de sutiãs e também outras peças íntimas mais explícitas (será um estouro nas vendas!). Nossas mães quando começaram a “guerra à opressão” contra a sociedade feita para machos, não poderiam vislumbrar o que se seguiria anos depois dos primeiros sustentadores mamários chamuscados: o ódio e o rancor camuflado (ou não) a tudo que é ou se mostra feminino: a confirmação de que a sociedade é para os homens e o pior de tudo: a subalternização das próprias mulheres em nome da conquista ao homem e de um casamento!

Testemunho isso em vários espaços, mas cito um em especial: as aulas de um curso de direito, o qual freqüento, aqui em Brasília. Campo de batalha: sala de aula. Exércitos: maioria de homens machistas de um lado, mulheres femistas e submissas do outro. Um cheiro no ar de “homens fortes do direito” em todos os corredores. Começa a batalha: os homens se mostram os melhores alunos, as mulheres as mais quietinhas. Eles, mais orgulhosos e desinibidos, falam em tom alto! Elas, mais oprimidas, quase sussurrando quando perguntam algo ao professor. Machos olhando para seios e nádegas femininos enquanto palestram em aulas magnas. Fêmeas apenas tentando encontrar um bom partido para casar e ter filhos. Masculinos consumindo e devorando livros de doutrina, ávidos pelo melhores postos profissionais. Femininas comprando insanamente todas as bolsas e sapatos da moda com o fim máximo de serem chamadas de “gostosas”. A guerra está ganha e os machistas já cantam o hino da vitória...

No século passado um cara chamado Freud diagnosticou a inveja do pênis e a mulher invejosa do falo sendo um “apêndice” do homem, numa alusão a lenda católica e caquética de Adão e Eva – essas idéias foram muito difundidas como grandes achados científicos do século. Graças aos Deuses veio a geração da minha mãe que trouxe uma luz para aquelas que se atreveram a questionar, num mundo forjado para o homem, que lugar queriam ficar. Algumas (feministas) mais alertas encontraram na teoria bíblica a aversão e a fobia aos seios, a vulva, a feminilidade como uma forma de inveja às qualidades “selvagens” de uma mulher que muitos machos (e homens, também!) teriam diante da gente.

Ah! Mas o que eu disse acima não é um privilégio só dos heterossexuais. Os gays – os que odeiam as mulheres e que também freqüentam a mesma faculdade que eu, confirmam isso! A diferença é o interesse: enquanto os heteros nos desejam, os gays nos execram. Basta apenas um olhar diferenciado para que eles promovam um fuzilamento com os olhos. O feminino é uma afronta aos gays inseguros que nos vêem como ameaça ao colóquio amoroso deles com outros homens. Eu sou uma afronta já que não precisei me fantasiar de homem para ser querida na sociedade. Ser mulher já incomoda! Imagine ser uma mulher do meu tipo: incomoda, machuca, queima, arde...

É claro que tudo isso não é culpa só do “sexo forte”. As mulheres têm lá sua parcela de idiotices, afinal estão cada vez mais fúteis e rasas. Mais submissas e conformadas. Algumas promovem a volta aos Anos Dourados, onde o máximo do status social era ser dona de casa e saber todas as receitas de bolos possíveis e imagináveis. As “tentações” são tantas e a gente quer tanto o amor deles, a felicidade de uma relação comprometida e segura, que faz qualquer negócio para chamar a atenção deles e segura-los o máximo que pudermos.

Gente: não há nada de errado em comprar bolsas, ser feminina, lânguida, sensível, querer casar, amar os homens, mas onde foi parar nosso sonho de igualdade no acesso a postos sociais maiores? Onde foi parar nossa ambição? E a igualdade de tratamento social nos gêneros? É ou não um tipo de violência contra o gênero feminino?

Temo pelo resto dos tempos...

Saudações às minhas irmãs amazonas.

*Texto originalmente publicado no jornal Tribuna do Brasil.

Comente