ParouTudo conversa com
ator Carlos Casagrande
Publicado em 08.04.07 : : Thales Sabino especial para a Tribuna do Brasil
Kaouê Guimarães/Ploc 3
Ator fala com exclusividade sobre personagem gay da novela Paraíso Tropical

Moreno, alto, olhos verdes, rico, educado e... gay. Sim, e casado com outro cara como ele. É de matar muita mulher de inveja e, por que não, muitos gays também. É esse o personagem ‘Rodrigo’, da novela das oito, vivido pelo modelo e ator Carlos Casagrande.

Em Brasília na última semana para a maratona de desfiles do Claro ParkFashion, o galã conversou com exclusividade com a coluna Diversidade. Essa, segundo ele, foi uma das primeiras entrevistas para a mídia impressa desde que a novela estreou, há pouco mais de um mês. “E não foi fácil”, comentou o ator ao final.

Para quem não acompanha Paraíso Tropical, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, vale citar duas informações. Rodrigo, personagem de Carlos Casagrande, não tem grande participação. Nem por isso, o papel deixa de chamar atenção. Ele é casado com Tiago, vivido por Sérgio Abral, ator vindo de Malhação. Os dois são bem sucedidos, não ‘dão pinta’ e vivem em Copacabana. Formam o típico casal do comercial de margarina, só que em versão gay.

Há também outro casal homossexual na novela, mais puxado para o cômico, que aos poucos tem ganhado espaço na trama.

Você pesquisou, fez o tal “laboratório”, antes de começar a gravar?
Não. O Gilberto [Braga] disse que não queria nada estereotipado ou com trejeitos, então tento ser o mais natural possível, para mostrar um gay que vive como qualquer outro homem, apenas com ‘opção sexual’ (sic) diferente da maioria. E como não está prevista nenhuma cena picante, para mim está normal, como qualquer outro personagem.

E como é sua relação com os gays?
Sempre convivi com homossexuais numa boa. Fui modelo por 11 anos e morei na Europa. Tive muito contato com gays lá, normalmente. E aqui também, desde que comecei a trabalhar como ator, em 98, tenho convivido com vários profissionais e amigos gays.

Como você tem sentido a receptividade do público da novela?
Ainda não deu tempo de perceber muita coisa, mas até agora está indo tudo bem. Acho que a forma como tem sido mostrado ajuda a diminuir o preconceito porque não choca. Recebi alguns e-mails de gays que se identificaram com o perfil do personagem e elogiaram o trabalho.

Alguns atores reclamam que perdem contratos de publicidade quando interpretam gays. Aconteceu isso com você?
Aconteceu sim e está acontecendo. É nessas horas que você vê que opreconceito existe, você vê o peso da discriminação. As marcas não querem se vincular à imagem do gay e o ator perde. Aqui em Brasília foi uma boa exceção [o ator desfilou para a VR].

Você usou o termo ‘opção’ sexual ao falar da ‘orientação’ sexual do personagem. Você tem idéia que a terminologia mudou?
Não. Mudou? Para mim isso é mais um tipo de preconceito com que não conhece a terminologia. Essas coisas levantam a curiosidade sobre o significado, mas não aprofundam a discussão.

Desculpe-me se pareci indelicado, mas você representa uma enorme quantidade de gente que sofre na pele por ser homossexual. Mesmo sendo ‘discreto’, seu personagem fala por uma ‘massa’ heterogênea de gays, discretos ou não...
Eu entrei em um caminho que tem sido aberto há muitos anos. Esta é a sétima novela consecutiva com personagens homossexuais. Acho que é uma conquista e sinto orgulho de participar dessa luta. Considero-me parte dessa luta e isso é o que espero que as pessoas valorizem.

Há mais de uma década o projeto da parceria civil tramita aqui no Congresso e não é votado. O que você pensa da união de pessoas do mesmo sexo, já que seu personagem vive com um companheiro?
É preciso lutar para conseguir aprovar essa lei não só no Brasil, mas no mundo. Precisa haver essa lei. Penso nos problemas dos casais gays, quando um dos dois morre e não se tem direito a nada. É muito sério isso.

Você posaria nu para uma revista gay?
Não. Mas não porque a revista seja gay, mas pelo nu mesmo. Não tenho vontade.

Como você faz para se manter em alta nas passarelas há tanto tempo?
Acho que tenho o perfil para comercial de banco, catálogos, desfiles. Isso me ajuda. E nunca cortei meu cabelo, por exemplo. Mas hoje quem desfila é o ator da novela, é o Casagrande da tevê que chama a atenção. Não me considero mais modelo porque modelo tem uma rotina que eu não tenho.

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