Mercado: quando a união
quer fazer a força

22.09.06 : : Thales Sabino para a Tribuna do Brasil
Thales Sabino/Paroutudo
Na cena GLS, os festeiros confundem concorrência com guerra. Que tal mudar?

Na última semana, tomei a iniciativa de reunir os cincos maiores produtores de de festas GLS de Brasília (no momento) para um almoço. A idéia surgiu ao constatar que até então o mercado não era organizado e se pautava pela rivalidade de egos. E o pior: grande parte dos promoters atuava no amadorismo puro.

Essa, aliás, é a realidade da maioria das capitais do País, em que na cena GLS os festeiros confundem concorrência com guerra. Pensei: por que não fazermos diferente?

Pois é. Com a crescente quantidade de aventureiros da noite – 2006 vai ficar marcado como o ano das “festas fora de boate” – achei que era hora dos mais cotados no setor se unirem para se fortalecerem e refletirem sobre duas importantes questões: o turismo GLS local e a abertura de espaço para a militância em seus eventos.

Em todos os outros setores do comércio é mais do que comum existirem as associações de tal e tal setor. Elas servem para fomentar o crescimento de cada categoria, mostrar novas tendências, cobrar incentivos do governo, organizar e potencializar o crescimento dos bons investidores. Não para monopolizar ou “cartelizar” o mercado.

Se novos empreendedores quiserem entrar para o ramo, e eles são mais que bem-vindos, é porque alguém um dia ralou e abriu espaço para esse tipo de idéia. Foi preciso que pioneiros insistissem para formar o hábito no consumidor gay de seguir a agenda de festas especiais (leia-se: em clubes e mansões alugadas).

É claro que o momento favorável ajudou na consolidação dessa tendência. Há um ano, escrevi aqui que o público de Brasília se queixava da falta de opções. Hoje, sobram produtores de primeira viagem a cada fim de semana. Alguns quebram a cara, outros mostram que merecem espaço. Mais do que quantidade de opções, é importante termos opções de qualidade. Por isso, repito, é importante fortalecer o mercado.

De forma pacífica, no almoço foi organizado um calendário de festas pensando, pela primeira vez, também no cliente forasteiro. A idéia é atrair novos turistas GLS para a cidade para passarem o fim de semana. À noite eles aproveitam eventos bem produzidos e de dia passeiam pela Capital do Brasil. Potencial a região tem. Só precisa saber explorá-lo.

Se até hoje o Governo do Distrito Federal, por meio de suas Secretarias de Turismo e de Direitos Humanos, não investiu um centavo sequer no filão arco-íris, quem sabe com esse “empurrãzinho” da iniciativa privada as “autoridades” pelo menos se tocam para sua importância, não é verdade?

Outro ponto igualmente importante da reunião foi a abertura de espaço para a militância promover ações de prevenção de DST e Aids e conscientização dos direitos LGBT dentro das festas. De nada adianta termos um público grande e bonito, mas desinformado e distante de questões importantes.Observei essa necessidade há alguns meses quando vi que muitos dos trabalhos dos ativistas ficavam restritos aos protestos e reuniões de grupo nas ONGs. A idéia é abrir as portas para aqueles que labutam na luta por nossa cidadania.

Nosso almoço foi um começo, um pouco mal-interpretado por alguns que ficaram de fora, que pode render bons frutos para a cidade, para o público e, claro, para quem souber investir. Agora é hora de colocar na prática o que foi conversado.  

Os produtores demonstraram satisfação com o encontro e tenho certeza que ninguém saiu de lá achando que estava “armando” pra dominar a noite de Brasília. Ficou no ar algo meio “todos por todos e cada um por si”. Afinal, o mercado é justíssimo e não adianta tentar enganá-lo. Quem é bom vence a briga.

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