Após as paradas, é hora de
mostrar orgulho nas urnas

16.09.06 : : Thales Sabino para a Tribuna do Brasil
Thales Sabino/TB
Eleitor gay corre risco de cair no saco de quem troca voto por chinelo, dentadura, pão...

À medida que as eleições se aproximam, o desespero dos candidatos em conseguirem votos cresce proporcionalmente. Não é diferente com o eleitorado de lésbicas, gays, bissexuais, trans, X, Y, Z – afinal nessas horas vale tudo. Nesta semana, vários deputáveis me procuram pedindo apoio. Como tenho feito há meses, me abstive de qualquer legenda partidária para poder analisá-los e analisar o eleitor.

No dia 27 de julho, a Tribuna do Brasil foi o primeiro, e infelizmente talvez o único veículo de comunicação, a publicar matéria com os candidatos à Câmara Distrital que apóiam a bandeira do arco-íris em suas campanhas.

Foram eles Elias Medeiros (PFL), Érika Kokay (PT), Espírito Santo (PDT), Fábio Felix (PSol), Mônica Nóbrega (PMDB) e Jorge de Oxóssi (PTB). Duas semanas depois, noticiamos que Estefany Rodrigues (PMDB) e Jair da Silva (PSDB) engrossaram o coro.

Em comparação a outras eleições, é um avanço, reconheço. Mas ao analisar o desempenho de cada um desses candidatos durante suas campanhas, chego à triste conclusão de que o eleitor LGBT de Brasília tem um problema nas mãos. Salvas duas ou três exceções, a maioria deles, é visível, está atrás do voto para se dar bem, para tentar tirar vantagem da política. Estão tão despreparados, desinformados e desacreditados quanto o Seu Zé das Couves que se lançou candidato e nos diverte no horário eleitoral.

No próximo dia 20, a convite da ONG Estruturação, serei mediador do primeiro debate de candidatos pró-LGBT do DF, que será gravado e transmitido pela internet. Se todos forem, vai ser a chance que o eleitor LGBT terá de comparar, lado a lado, cada um daqueles que se disseram compromissados com nossas lutas.

Olha de se olhar no espelho

Nesta semana, pipocaram nos sites GLS artigos e reflexões sobre as eleições e o voto gay. Às vezes questiono a existência de tal eleitor. No Brasil, o eleitorado LGBT parece esquecer sua orientação sexual na hora de ir às urnas. Em escala de importância, ele pensa primeiro no favor, na influência, no emprego, na saúde, na educação... Quando aparecem na lista de prioridades, as demandas LGBT ficam lá no finalzinho.

Como se aprovar a união civil de pessoas do mesmo sexo fosse menos importante que ter um bom sistema público de saúde. Como se criminalizar a homofobia fosse mais “supérfluo” que ter uma rede de ensino eficaz.

O eleitor gay que vota em determinado candidato simplesmente porque é amigo dele e pretende se dar bem caso seja eleito, para mim, está no mesmíssimo saco daqueles miseráveis que trocam seus votos por chinelo, dentadura, material de construção, bola de futebol ou pão.

Enquanto não cair a ficha de que as eleições são uma chance para mudarmos para melhor nossa realidade coletiva, vamos continuar a fazer paradas do orgulho com multidões que não têm seus direitos reconhecidos.

E todo ano seremos apenas aquele tanto de gente dançando e fazendo farra com bandeiras do arco-íris. Se não fizemos nada, continuaremos a ser uma massa que não se úne para votar e confirmar, nas urnas, aquilo que pede (ou finge pedir) enquanto bebe e dança atrás de trios-elétricos.

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