A invenção não é nossa, mas Brasília leva a fama de “terra do carão” por muitos gays brasileiros. Antes de discutir a polêmica, vamos explicar o que é o tal “carão”. O nome brinca com a fisionomia que muita gente faz em ambientes GLS. É aquela cara sisuda, metida, esnobe e mal-humorada que tenta passar a impressão de “poder”.
Para a drag-queen Morango Luxo, aqui, porém, a postura antipática não é exclusividade do meio GLS. “Brasília é uma cidade política focada em poder e trabalho. Não só os gays, mas os héteros também são metidos por aqui. Todo mundo que vem de fora percebe a diferença”, diz. Ela confessa que entrou no esquema e que acaba fazendo carão de forma inconsciente. “Faço carão, sim, mas não por vontade própria. É a regra da cidade, é da cultura brasiliense”, justifica.
Para o analista de sistemas Fernando, 28 anos, outra possível explicação para o carão talvez se resuma naquela expressão de que “Brasília é um ovo de codorna”. A cidade tem dois milhões de pessoas, mas é fortemente dividida em círculos sociais. “Em outras cidades isso é menos claro. Aqui o lugar onde a pessoa mora define muito bem a renda dela e que grupo ela freqüenta. As pessoas dos círculos se fecham”.
Na capital do País, todos querem sempre ir ao melhor lugar, ao mais badalado, ao mais “in”. E no meio GLS é pior ainda devido às poucas opções de lazer dirigidas a esse público, o que faz que vários círculos incompatíveis se juntem no mesmo espaço – prato cheio para o carão. Barbies [malhados] fazem cara feia para transgêneros.
Pintosas [afeminados] jogam o cabelo e irritam os alternativos, goiabas [mulheres simpatizantes que gostam de ficar com gays] pisam de salto-alto nos pés dos outros.
Nesse conflito interminável, surgem as idéias como: ‘Ai, só tem gente feia nesta cidade’ ou ‘não suporto os gays dessa boate’, que inevitavelmente vêm acompanhadas de um carão turbinado em relação a outras capitais.
Uma outra justifica para o carão de Brasília é a vontade que a maioria tem de ser desejado, seja para amizade, namoro ou só sexo. Ser rico, VIP, “difícil”, ter amigos bonitos e se encaixar em uma série de regras que se baseiam no que as pessoas pensarão sobre você define o quanto você será desejado (e proporcionalmente carudo).
Mineiro em Brasília há oito anos, o consultor financeiro Leonardo, 25 anos, estranhou a frieza das pessoas no meio GLS quando chegou aqui. Adepto da simpatia comedida, ele acha que o carão só atrapalha. “Quem faz uso dessa artimanha perde a oportunidade de conhecer pessoas ótimas, deixa de ser convidado para festas e deve ser muito inseguro”.
O rapaz acredita que, em vez de passar imagem de sofisticado, quem faz carão assina um ‘atestado de emergente’. “Chique é ser descolado. ‘Carudas’ na maioria das vezes estão bem longe do poder e não pegam ninguém”, acredita. E como desmontar alguém que faz carão? “Com muita simpatia, um belo sorriso e uma postura segura, autoconfiante. É infalível”, garante.
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