Mercado em Brasília muda e
drags agonizam sem espaço
Publicado em 21.01.07 : : Susane Moraes , da equipe ParouTudo
Arquivo/ParouTudo
De estrelas a coadjuvantes, performers do DF comentam decadência do estilo ‘Priscilla’

Durante anos, por todos os clubes gays que existiram no DF, elas foram sucesso absoluto. Os eventos lotavam e toda semana havia show sexta e sábado.

Se você der uma navegada pelas coberturas de festas aqui no ParouTudo vai ver que até meados de 2005, a drag tinha papel cativo. Em cidades menores ainda é assim, mas hoje a história delas em Brasília é bem diferente.

Cada vez com menos espaço para se apresentarem nas festas GLS, as drags candangas não vivem mais seus dias de glória. Elas são mais vistas em eventos héteros, como casamentos e bailes de formatura, do que na cena gay.

Para Allice Bombom, que tem quase 12 anos de carreira, o mercado GLS está tão parado que ela investe também em outros campos. “Eu estou fazendo teatro agora. O mercado está fraquíssimo para drags, fraco até demais. As pessoas estão se interessando mais por DJ, principalmente os de fora da cidade”, queixa-se.

A colega de Taguatinga Thuanny Lins confirma a falta de interesse do público. Para manter a personagem, o jeito é recorrer às apresentações ‘caretas’. “Nos shows para o público gay você tem que estar sempre com uma produção nova, não pode repetir roupa. Já nas festas héteros, como são clientes diferentes a cada dia, dá até para fazer a mesma produção que ela parece inédita. Isso sem falar que dá para ganhar quatro vezes mais do que nas festas GLS em Brasília”, afirma.

É fato que nos maiores eventos gays da cidade, como a Festa Fun e a Festa da Lili, o público vem mesmo se interessando cada vez mais pela temática, decoração e principalmente pelos DJs. Até os shows de strippers no palco decaíram na escala de preferência.

“As drags sempre foram a alegria da festa, é uma pena que o mercado esteja tão em baixa e nós estejamos passando de estrelas a coadjuvantes”, comenta Stella Star, transformista do clã de Fernando Toledo, que teve que se adequar para não ficar fora de linha.

Regina Perri, dona da boate Jump, de Goiânia, famosa pelos shows de drag queens, prevê a mesma ‘dragadência’ na cidade em pouco tempo. “Tudo passa nessa vida. Esse modismo de go-go boy e drag já cansou os freqüentadores. É hora de inovar. As drags não investem em coisas novas, é sempre o bate-cabelo e mexer a boca, as mesmas perucas e maquiagem. As pessoas cansam disso. Seria melhor se elas investissem em arte”, afirma Regina Perri, dona de uma das mais conhecidas boates de Goiânia, a Jump.

Múcio Mello, dono da Oficina, acredita que a mudança no mercado aconteceu em favor de outros quesitos que ganharam importância na noite. “As pessoas agora se interessam mais pela qualidade do som, do DJ e preferem apresentações performáticas. A drag clássica caiu, perdeu espaço”, diz.

O performer Márcio Frozen, que não é drag e faz a linha andrógina, também acredita que o público se cansou do formato ‘Priscilla’. “A grande sacação do momento são as performances e não os shows. A forma mais caricata ou dublagem são boas para os hetéros, mas para os gays perdeu a graça”, comenta.

Para Antônio Weyner, da boate Garagem, o sumiço das drags da casa é devido à falta de interesse delas. "Não existem mais drags em Brasília. Elas não me procuram para ter espaço na Garagem. Só temos a Black Maluca, que se apresenta pelo menos uma vez por mês", afirma.

Contraste

Com o lançamento do filme ‘Priscilla, a Rainha do Deserto’, em 1994, a cultura ‘drag queen’, que já vinha ganhando força desde o começo da década de 90 (até então o que dominava era o estilo transformista), tomou tamanha projeção e popularidade que naquele período nasceram várias das drags brasileiras que conhecemos hoje.

Em Brasília, a história foi mais ou menos o seguinte: até o começo dos anos 90, o point das artistas de peruca e salto alto era a New Aquarius, primeira boate gay da cidade. Lá, o estilo que fazia sucesso era o transformista, mais feminino, com dublagem de músicas de divas. Na segunda metade da década, foi a vez das drags, com muito colorido, ar clubber, e bate-cabelo de remixes da house music.

Em São Paulo, o mercado de transformistas e drags ainda é forte. As que trabalham na Blue Space, por exemplo, fazem várias apresentações em uma única noite em vários clubes, lançam CDs e não param de viajar. Só que lá é São Paulo, tem mercado para tudo. Com menos público do que a capital paulista, a maioria das festas de Brasília tem apostado na linha ‘The Week’ (clube que tem o DJ como destaque) e dado menos espaço às drags.

“As apresentações de São Paulo têm muito glamour e as daqui de Brasília são feias. São níveis diferentes. Lá elas têm recursos para fazer algo melhor, aqui não”, afirma Ábiner Augusto, estudante. “Eu adoro os shows, faz parte da cultura GLS, mas poderia ser melhor em Brasília”..

O estudante, que diz ser fã da cultura drag, ainda comenta que o problema das apresentações interromperem o DJ. “O pessoal sempre reclama de parar a música para as drags se apresentarem. Cansa e todo mundo é obrigado a assistir, hoje deveria ser algo à parte”.

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