Mães modernas, do tipo  
que têm blog e amigo gay 
Publicado em 13.05.07 : : Pedro Marra , da equipe ParouTudo
Márcia Charnizon/Divulgação
ParouTudo entrevista mães modernas do Mothern Laura Guimarães e Juliana Sampaio  

Mothern, mistura de mãe (mother) e moderna (modern). A palavra é título de um blog, que virou livro e programa de tevê. Às vésperas do Dia das Mães, o ParouTudo entrevistou Laura Guimarães e Juliana Sampaio, criadoras da expressão. 

As mineiras são mães vindas de uma geração que passou por grandes questionamentos e mudanças. Juliana tem 36 anos e um filha de 6, Alice, e um enteado de 14, André. A Laura tem 37 anos e duas filhas: Nina, de 11 anos, e Gabriela, de 8. 

No blog, elas retratam situações do cotidiano e a forma com que lidam com a maternidade, com os filhos crescendo, o trabalho fora de casa, dentre outros. Temas que antes eram praticamente proibidos em casa são abordados com total naturalidade pelas blogueiras. os poucos, mais 'mães-modernas' foram se identificando com a proposta e a página virou uma febre. 

Daí surgiu a proposta para o primeiro livro e o segundo, que está sendo lançado nesse mês. Não demorou muito para serem chamadas pelo GNT para participarem da produção da primeira série de dramaturgia nacional produzida pelo canal, que mostra quatro mães que vivem verdadeiras aventuras para ‘exercerem’ a maternidade nos dias de hoje. 

Como surgiu o temo ‘mothern’? 

Juliana: Bom, o nome ‘Mothern’ surgiu de um trocadilho que a Laura criou com as palavras mother (mãe) e modern (moderna). Mas não é uma pergunta fácil. Mães modernas são muitas. Mas acho que o que chamamos de "mothern" tem a ver com um jeito mais leve, bem-humorado e questionador de encarar a maternidade. Somos de uma geração de mulheres que vêm questionando coisas desde a adolescência, que sempre procuraram estar antenadas com sua época e que, neste momento, estão se tornando mães, com todas as dúvidas, problemas, descobertas, aflições e prazeres que vêm dessa experiência. 

O que é de fato ser uma ‘mãe moderna’? 

Juliana: A gente usa o termo "moderna" de uma forma bem descompromissada, mais no sentido de "mães contemporâneas, mães da nossa geração". Academicamente, talvez a gente esteja mais pra pós-modernas (hehehe). Mas, enfim, o que eu acho que pode ser uma característica desta nossa geração de mulheres com filhos, se é que há características comuns a um universo tão grande de pessoas, é o fato de a gente questionar o que historicamente vem sendo associado à idéia de "ser mãe": esse mundo cor-de-rosa, cheio de heroínas abnegadas, que se desdobram em mil pra dar conta de todos os seus afazeres, que se anulam pela família, que não têm medos, não se aborrecem, não faltam a uma reunião da escola do filhos e ainda conseguem manter a depilação sempre em dia. Enfim, a gente pode não saber exatamente o que é ser uma mãe moderna, mas sabemos o que não somos. Realmente não conseguimos nos identificar com esses estereótipos e tentamos, pela via do humor, desconstruir esse personagem que, a nosso ver, é irreal e só gera culpa nas mulheres. 

E como nasceu o blog? 

Laura: Ele começou em janeiro de 2002, quando a gente trabalhava juntas. Comentando por e-mail da falta que a gente sentia de mídias que dessem voz às mães, e não só a "especialistas" falando para mães, veio a idéia de escrevermos nós mesmas sobre essa experiência. E assim surgiu

o blog. 

Como o blog foi virar programa de tevê? 

Laura: Bom, primeiro ele virou livro. No final de 2004 o Paulo Tadeu, editor da Matrix Editora, conheceu nosso blog e nos convidou para publicar um livro. Lançamos então o "Mothern - Manual da Mãe Moderna" em abril de 2005, com uma edição dos melhores textos do blog, revistos e ampliados. Já o programa de TV surgiu da idéia do diretor da série, Luca Paiva Mello, que teve acesso ao livro, gostou e nos procurou para adaptá-lo para a TV. 

Como uma mãe moderna lida (ou deveria lidar) hoje sobre assuntos polêmicos com os filhos (homossexualidade, drogas, etc)... 

Juliana: A gente particularmente tem muita tranqüilidade para falar com as crianças sobre esses e outros assuntos. Acho que o principal é você ser coerente, agir de acordo com o que diz. Se você tem tranqüilidade a respeito de sua própria posição sobre estes temas, não tem por que se sentir constrangido em falar disso com as crianças. O constrangimento só vem quando você não tem muita certeza sobre o que gostaria de passar, quando você mesmo ainda se sente incomodado pelo assunto. Aí é melhor refletir primeiro sobre seus próprios valores, para depois orientar as crianças segundo eles. Uma vez eu postei no blog um diálogo com a milha filha, que é muito fofo e ilustra bem essa leveza que estes assuntos podem ter. Eu estava comentando com a Alice, que tem 6 anos, sobre um caso acontecido comuma amiga minha e sua namorada. E ela perguntou: 

- Ué, namorada? Mas ela não é menina?!

Eu respondi que sim, mas que algumas meninas preferem namorar meninas.

A Alice pensou um pouquinho e respondeu:

- Tem uma vantagem, né, mãe, em namorar outra menina...

Eu perguntei qual era a vantagem e ela respondeu:

- Elas podem pintar a casa delas toda de rosa!!!!

Hahahaha!

Além de divertida, essa conversa, a meu ver, ilustra muito bem a naturalidade que as crianças têm com essas questões, quando elas são tratadas realmente com a naturalidade que merecem. 

E sobre essa nova estrutura social: duas mães lésbicas, dois pais gays. Como podem ser melhor aproveitadas as dicas que vocês dão no programa? 

Muitas das questões mais relevantes da maternidade na verdade independem do sexo do progenitor: "o que fazer para esse bebê dormir 8h por noite?", " É melhor deixar com a babá ou colocar numa creche?", "Qual é a melhor melhor escolinha: construtivista ou antroposófica?" ,

"Como ir a um restaurante com as crianças e não sair com a roupa toda

borrada de catchup?". Já adianto que não temos respostas para nenhuma dessas questões, mas se você acessar o nosso blog (http://mothern.blogspot.com) ou o Livro de Visitas anexo a ele, vai ver que pelo menos não está sozinho nessa peleja, o que não deixa de ser, no mínimo, muito reconfortante! 

Pais e mães dessa nova e moderna família interagem com o programa e com o blog? 

Com o blog, sim, já tivemos algumas leitoras lésbicas com filhos participando do bate-papo do Livro de Visitas , de lançamentos do livro, etc. Casais gays com filhos ainda não apareceram, mas serão todos muito bem-vindos. 

Falem sobre o segundo livro [‘As 500 melhores coisas de ser mãe’, Ed. Matrix. R$ 15]. 

Laura: Este livro surgiu de um convite do nosso editor, Paulo Tadeu, que está lançando a coleção "As 500 melhores coisas de..." e nos chamou para escrever o primeiro da série. A gente até brincou que seria mais fácil escrever ‘As 250 melhores e as 250 piores...’. hehehehe. Mas ele insistiu, a gente começou a anotar as alegrias que esta vida de "mothern" tem nos proporcionado, e no final tivemos até que cortar algumas para caber no volume que diz o título.

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