A Paramount lançou no Brasil este ano a produção animada "Queer Duck – o filme", em um DVD que não vai estar disponível nas locadoras, mas que pode ser facilmente encontrado no varejo para ser comprado diretamente pelo consumidor final.
Queer Duck foi um dos primeiros programas animados do Icebox, um site lançado no final de 1999 dedicado a apresentar diversas animações feitas por profissionais independentes. Mas o sucesso de Queer Duck foi além da internet, e os seus 20 curta-metragens foram comprados pelo canal de televisão Showtime, que passou a exibi-los após os episódios de Queer as Folk.
Logo, partir para um longa-metragem foi uma evolução natural. O projeto foi inicialmente concebido para ser uma produção independente, mas depois de alguma desistências de financiadores, o estúdio Paramount resolveu bancá-lo - o que foi uma agradável surpresa para os seus criadores (que, por sinal, não são gays).
Queer Duck é um enfermeiro (profissão sobre a qual os americanos usualmente fazem piadas) casado com um jacaré chamado Openly Gator (um trocadilho com a expressão openly gay, ou seja, fora do armário). Outros personagens são Bi Polar Bear, Oscar Wildcat e a família de Queer Duck, composta por sua irmã sapa caminhoneira Melissa e por seus pais Sr. e a Sra. Duckstein (uma curiosidade: a voz da Sra. Duckstein é da ótima Estelle Harris, que interpretava a mãe de George Costanza no seriado Seinfeld).
Tanto os curta-metragens como o filme musical de Queer Duck fazem a festa dos cinéfilos com inúmeras - e engraçadíssimas - referências a filmes, que podem ficar sem graça para quem não é muito ligado à cultura cinematográfica. No filme, por exemplo, aparecem referências a Um Conto de Natal (obra de Charles Dickens encenada todos os anos na TV americana), ao
popular Snoopy, a desenhos da Disney como A Bela e a Fera e A Dama e o Vagabundo, e a filmes como Batman, Flashdance, Laranja Mecânica, O Mágico de Oz, A Primeira Noite de um Homem e principalmente a Sunset Boulevard e O Que Terá Acontecido a Baby Jane (estes dois últimos são clássicos imortais da cultura gay). Isso sem falar no tema de abertura, que com uma música cantada por Ru Paul faz referência ao desenho animado Top Cat (conhecido no Brasil como Manda-Chuva).
Por todas as referências culturais, a tradução acaba deixando muito a desejar, pois nota-se claramente que quem a fez não tem nenhum conhecimento da cultura gay contemporânea - o que acaba com as piadas e torna algumas cenas dubladas simplesmente ridículas (uma das provas mais gritantes disso é quando aparece uma referência à Dra. Laura Schlessinger, que é tratada como se fosse um homem... ou seja, os tradutores claramente não sabiam o que estavam fazendo). Além de tudo, a dublagem apaga a ótima interpretação dos atores e impede o espectador de ouvir as vozes de astros convidados como David Duchovny, Conan O´Brien, Mark Hamill e Tim Curry. Na verdade, bastaria bom-senso para saber que a dublagem neste DVD é desnecessária, pois o público que tem cultura e inteligência para curtir Queer Duck é composto por pessoas que certamente nunca assistiriam a uma produção como esta em versão dublada.
Felizmente, a legendagem do DVD é boa, e consegue manter a maioria das piadas. E se lembrarmos de Will & Grace, por exemplo, onde as legendas chegam a dizer exatamente o oposto do que os personagens estão falando, a legendagem de Queer Duck pode ser classificada como ótima.
Além de ser um dos principais lançamentos de interesse GLBT dos últimos meses, o DVD de Queer Duck - o filme é uma grande opção para quem procura uma comédia escrachada e muito divertida mas que consegue brincar de forma inteligente com todos os estereótipos da homossexualidade. O disco traz ainda um bom material extra com entrevistas e cenas de bastidores, e 5 dos 20 curta-metragens originais exibidos no Showtime. É uma boa idéia para dar de presente ou simplesmente para comprar e ter em casa, para ver e rever com os amigos.
Queer Duck - o filme. De Xeth Feinberg. EUA, 2006. 72 min.
Preço médio: R$ 29,00.