“- Você gosta de me foder?
- Por que não? Não é ruim. Mas se eu dissesse que sinto algo por você, estaria mentindo. Nunca entendi como alguém pode se apaixonar por um homem.
- Eu jamais me apaixonaria por um homem. Deixei você me foder porque eu gosto.
- Mas você já tentou foder um cara?
- Nunca. Nem estou interessado.
- Mas você não se importa que outros caras te fodam?
- Como eu disse, é só por diversão."
Esta conversa entre dois homens é apenas um dos ótimos diálogos do filme Querelle, produção de 1982 de Rainer Werner Fassbinder e que foi lançada em DVD no Brasil no ano passado pela Versátil.
Filmado inteiramente em estúdio e com um ar teatral proposital (inclusive nas atuações e no tom de voz dos atores), Querelle conta a história de um marinheiro inescrupuloso que sabe que é belo e se aproveita de seu próprio corpo para conseguir seus objetivos seduzindo todos os homens que encontra - inclusive o próprio irmão, que costuma se masturbar pensando nele.
Repleto de cenas com homens musculosos sem camisa e baseado no clássico homônimo de Jean Genet, Querelle é estrelado por Brad Davis e Franco Nero (grandes estrelas do cinema cult de então), e é a última realização de Fassbinder, que morreu de overdose na mesma época em que o filme chegou aos cinemas europeus.
Apesar de ser relativamente pouco conhecido no Brasil, Rainer Werner Fassbinder foi um ícone da década de 1970 que cravou seu nome na história da sétima arte e na história da cultura gay.
Nascido na Alemanha em 1945, aos 15 anos de idade ele parou de estudar, assumiu sua homossexualidade publicamente e começou a se envolver com o teatro político e arte de vanguarda. Aos 21anos, começou sua carreira como cineasta, o que lhe renderia muitos prêmios e um reconhecimento mundial do público e da crítica. Até sua morte prematura, Fassbinder completou mais de 40 projetos para o cinema e a televisão, dentre os quais os mais conhecidos - além de Querelle - são Lili Marlene, As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, O Casamento de Maria Braun e O Desespero de Veronika Vöss (aos poucos, os filmes de Fassbinder estão chegando em versões restauradas em DVD no Brasil, mas como nem todas as locadoras se interessam em tê-los, você pode encontrar estes filmes mais facilmente indo direto a lojas de departamentos ou visitando lojas virtuais, que geralmente têm um acervo mais diversificado).
Apesar de profundamente erótico, Querelle não tem nenhuma cena de sexo explícito: a forte tensão sexual fica por conta da imaginação do próprio espectador, que não consegue ficar indiferente à bela fotografia em tons de alaranjado e aos diálogos profundos e desconcertantes.
Os DVDs da Versátil geralmente não trazem nenhum material extra interessante, mas pelo menos a qualidade de imagem é boa. No caso de Querelle, que conta com a força da fotografia como instrumento narrativo, este é um aspecto importante. Como curiosidade, a capa interna da embalagem traz dois cartazes históricos do filme (um deles sendo uma famosa ilustração homoerótica de Andy Warhol).
Para quem ainda não conhece a obra de Fassbinder, Querelle é certamente a melhor opção para começar. E quem já é fã do cineasta tem em Querelle um título simplesmente indispensável para acrescentar à sua coleção de DVDs.