Este mês de abril marca 27 anos da morte de um dos maiores gênios do cinema: Alfred Hitchcock, que faleceu 29 de abril de 1980, aos 81 anos de idade, em sua casa na Califórnia.
Sempre discreto, mas extremamente vaidoso e com um senso de humor sofisticadíssimo, Hitchcock entrou para a história da sétima arte por diversas razões: foi o primeiro cineasta a tornar-se uma celebridade conhecida do grande público, foi o primeiro diretor do mundo a ser considerado pela crítica como um "diretor autoral" (ou seja, um diretor que tinha autoridade artística para imprimir uma marca pessoal e inconfundível em cada um de seus filmes) e foi a pessoa que fez o discurso de agradecimento mais curto em toda a história do Oscar (em 1968, ao receber o Oscar honorário pelo conjunto de sua obra, Alfred Hitchcock subiu ao palco, aproximou-se do microfone, disse "thank you", virou-se e saiu de cena calmamente).
Alfred Hitchcock nasceu em Londres no dia 13 de Agosto de 1899. Aos 21 anos, começou a trabalhar escrevendo slides com textos inseridos em filmes mudos. Em 1924, foi convidado para dirigir dois filmes mudos na Alemanha: Irrgarten der Leidenschaft (lançado em 1925) e Der Bergadler (lançado em 1926). Ambos foram fracassos de público e de crítica - mas serviram como estímulo para Hitchcock procurar aperfeiçoar seu talento cinematográfico. Em 1927, Hitchcock voltou para a Inglaterra e dirigiu The Lodger, sobre um serial killer que matava mulheres loiras. O filme foi um
grande sucesso.
Em 1939, quando completou 40 anos de idade, Hitchcock já tinha 26 filmes em seu currículo - entre eles obras de renome mundial como 39 Degraus e A Dama Oculta. Foi então que o produtor americano David O. Selznick chamo-o para trabalhar na MGM nos Estados Unidos. Selznick estava colhendo os frutos de ... E o Vento Levou e era o produtor mais poderoso de Hollywood. Mesmo assim, negociou humildemente com Hitchcock - que aceitou o convite mediante a promessa de que Selznick lhe pagaria qualquer salário que ele pedisse, e que cumpriria qualquer uma de suas exigências sem questionar. A primeira colaboração entre Hitchcock e Selznick resultou em um dos filmes mais famosos de suas carreiras: Rebecca, que foi indicado ao Oscar em 11 categorias e venceu como melhor filme e melhor fotografia.
A partir de então, e até sua morte, Alfred Hitchcock dirigiria mais 36 filmes americanos - a maior parte deles disponível em DVD nas locadoras brasileiras. Muitos deles foram lançados por uma coleção da Universal, que incluiu ótimos documentários inéditos em cada disco. Alguns destes documentários chegam inclusive a ser quase tão longos quanto os filmes, e são compostos por entrevistas com atores, depoimentos de roteiristas e técnicos, comentários de Patrícia Hitchcock (a única filha de Alfred e sua esposa Alma) e muitas curiosidades sobre a produção dos filmes em seus mínimos detalhes - além de histórias hilárias sobre acontecimentos nos sets de filmagem e sobre o grande senso de humor de Hitchcock.
É também nestes documentários que aprendemos como Hitchcock filmou a famosa cena do chuveiro de Psicose, como era sua relação com sua musa Grace Kelly fora dos estúdios e uma série de fatos interessantes sobre a introdução de inovações técnicas e narrativas copiadas até hoje (isso sem falar em um ótimo documentário sobre a imortal Edith Head - para os fashionistas, para os gays, e principalmente para os fashionistas gays, este material é inestimável!).
A vida sexual de Alfred Hitchcock sempre foi tema de várias especulações. Há quem afirme que ele manteve tórridos casos amorosos com suas protagonistas loiras e com seus galãs musculosos. Mas a história mais plausível é também a menos interessante: aos 27 de idade, ele teria se casado virgem, e teria tido apenas uma relação sexual com sua esposa Alma durante toda a sua vida. De qualquer modo, a ambigüidade sexual dos personagens de Hitchcock é marcante até hoje, e sempre merece destaque quando se fala da história do sexo no cinema. Em plena vigência do Código Hays, cenas que indicavam estupro ou promiscuidade sexual eram sempre freqüentes nos filmes de Hitchcock - além de inúmeras situações de sedução entre homens e de personagens femininas que, sem qualquer explicação aparente, vestem-se com terno e gravata e comportam-se como homens.
Além desta "tensão sexual", e apesar de sempre manterem a mesma temática de suspense, os filmes de Alfred Hitchcock são muito diversos. Em Interlúdio, por exemplo, ele realiza uma trama nazista que se passa no Rio de Janeiro. Em Disque M para Matar, Hitchcock foi o pioneiro na técnica de fotografia em 3 dimensões. Em Psicose, ele mostrou cenas de nudez até então impensáveis para um filme de um grande estúdio. Em Marnie, Hitchcock fez uma bela combinação entre cenários pintados em lona e locações reais. E em Festim Diabólico, além de filmar a ação sem cortes, Hitchcock fez o primeiro filme comercial com personagens gays da história do cinema.
Com o nome original de Rope e lançado em 1948, Festim Diabólico é baseado em uma peça de Patrick Hamilton - que por sua vez baseou-se em um caso real em que dois rapazes cometeram um assassinato em Chicago movidos por uma mórbida curiosidade.
O aspecto técnico do filme é genial: tudo foi filmado em um único cenário, em takes contínuos de 10 minutos de duração - pois era este o tempo que durava um rolo de filme. Cada vez que o rolo acaba, a câmera foca um ponto escuro no cenário (geralmente as costas de um ator), o rolo é trocado e a ação continua (é este o estilo de filmagem usado com freqüência até hoje nos sitcoms americanos do modo single-camera - como Scrubs, por exemplo). Além disso, todas as peças do cenário eram continuamente movidas por contra-regras, que engatinhavam pelo chão arrastando os móveis para que o cameraman não tropeçasse neles, e colocando-os de volta no lugar para quando a câmera voltasse a focar o ângulo anterior.
A trama conta a história de Phillip e Brandon (um casal gay) e de Rupert Cadell (um antigo professor deles, que também é gay e que manteve um caso com um de seus ex-alunos). Os personagens se encontram em um jantar oferecido pelo casal para um grupo de pessoas relacionadas a um crime por eles cometido. É claro que, devido à época de produção do filme, a homossexualidade teve que ser tratada de uma maneira menos explícita - mas mesmo assim presente durante todo o filme e sempre revelada através de detalhes (principalmente pelas falas da Sra. Wilson, a empregada do casal).
Como diz Arthur Laurents, roteirista do filme: "Todo mundo sabia que Phillip e Brandon eram um casal gay. Só os censores não perceberam isso, pois eram muito burros! Além dos aspectos técnicos inovadores, Rope é até hoje um dos filmes mais importantes do cinema pela maneira sofisticada com que trata a homossexualidade".
Portanto, em um ano que começou com poucos lançamentos de temática GLBT nas locadoras, que tal relembrar o maior clássico do gênero?
: : Festim Diabólico (Rope), de Alfred Hitchcock. EUA, 1948. 81 min.