: : 1 - Pensando em Altman
Alguns dias antes da morte de Robert Altman, eu já tinha decidido que minha última coluna de cinema do ano de 2006 seria uma homenagem a ele, meu cineasta favorito. Imaginando em como escrever o texto, e nas coisas que eu gostaria de dizer, por várias vezes pensei: “ele já está tão velhinho, tomara que não morra logo.” Mas Altman resolveu partir, e faleceu em Los Angeles no dia 21 de novembro.
De qualquer maneira, a idéia do meu artigo continuou – apesar de várias mudanças. Na verdade, apenas o fato de escrever este texto em primeira pessoa é que vem desde a idéia original. Em todos os meus 140 artigos já publicados na internet, em jornais e revistas nestes dois anos de ‘profissão’, só escrevi em primeira pessoa duas vezes, em ocasiões importantes para mim. Portanto, para falar de Robert Altman, resolvi fazer uso deste estilo novamente.
: : 2 - O Jogador
O primeiro filme de Robert Altman a que assisti foi O Jogador (The Player), de 1992. Este é o 25º longa-metragem cinematográfico de Altman, e eu o vi em 1994. Na época, estava começando a me interessar verdadeiramente pela sétima arte. Logo me apaixonei pela criatividade, sensibilidade e ousadia de Altman. Era o tempo do VHS e vi todos os outros filmes dele disponíveis na locadora da minha cidade. E é claro que passei a acompanhar a carreira e o trabalho de Altman para sempre – embora nem todos os seus filmes tenham sido lançados no Brasil.
: : 3 - Transexualidade
Robert Altman foi o primeiro cineasta a fazer um filme que trata da transexualidade como tema principal (e isso no longínquo ano de 1982!) em ‘James Dean, o Mito Sobrevive’. Com o complexo nome original de ‘Come Back to the Five and Dime, Jimmy Dean, Jimmy Dean’, o filme é baseado na peça homônima de Ed Graczyk e somente um diretor como Altman conseguiria criar uma narrativa que se passa ao mesmo tempo no passado e no presente e que seja não somente entendida pelo espectador, mas que seja também fascinante em si mesma.
Outro fato interessante é que o filme é estralado por Cher, que apenas com este papel conseguiu o que vinha tentando há anos sem sucesso: ser considerada uma atriz competente. A boa atuação de Cher no filme de Altman lhe rendeu uma indicação ao Golden Globe e um convite de Mike Nichols para participar de Silkwood ao lado de Meryl Streep – papel que renderia a Cher sua primeira indicação ao Oscar.
: : 4 - Trabalhando de Graça
O que Robert Altman fez pela carreira de Cher ainda aconteceria muitas vezes com outros artistas, tanto que inúmeros atores sempre fizeram questão de trabalhar praticamente de graça em seus filmes apenas pelo privilégio de estar em contato com este mestre do cinema – e também de ganhar um pouco mais de credibilidade artística. De Julia Roberts a Whoopi Goldberg, de Warren Beaty a Sidney Pollack, passando pela atriz do teatro inglês Maggie Smith, a lista de nomes célebres que já passaram pelas mãos de Altman é realmente imensa.
: : 5 - Suicide is Painless
Robert Altman já tinha 45 anos quando fez a sua entrada triunfal no mundo da sétima arte. Tudo começou em 1969, quando a 20th Century Fox queria produzir M*A*S*H*, um filme baseado no livro de Richard Hooker sobre um hospital militar americano montado em meio à selva durante a guerra da Coréia. Quando quinze diretores recusaram participar do projeto, Robert Altman – então diretor de comerciais de televisão e séries como Bonanza e Alfred Hitchcock Apresenta – ofereceu-se para dirigir o filme. O resultado foi surpreendente e inesperado em todos os sentidos: lançado em 1970, M*A*S*H* foi indicado a cinco Oscars e tornou-se um dos filmes mais lucrativos da história do cinema. A técnica, a novidade e a ousadia de M*A*S*H* correram o mundo, dando a Altman um prestígio enorme já em seu primeiro filme e colocando seu nome direto no topo da lista do primeiro time de talentos do cinema. A antológica cena inicial de M*A*S*H*, com o helicóptero pousando ao som da música Suicide is Painless (escrita pelo filho de Altman), é até hoje exaustivamente referenciada e imitada em inúmeros filmes, seriados e até desenhos animados.
: : 6 - The Company
Em um estilo semi-documental que acompanha uma temporada da The Joffrey Ballet of Chicago, The Company é simplesmente meu filme preferido de todos os tempos. Nele, Robert Altman trabalhou com 45 dançarinos e apenas 3 atores profissionais: Malcom McDowell, James Franco e Neve Campbell – que por sinal é a idealizadora e produtora do projeto, fruto de dois anos de trabalho de Neve e da roteirista Barbara Turner, que entrevistaram bailarinos e conceberam a estrutura do filme enquanto Neve participava dos ensaios reais da Joffrey Ballet. A narrativa de The Company é toda feita em um delicado subtexto intercalado com belas seqüências de dança – inclusive a antológica cena em que o próprio Altman se coloca atrás da câmera e filma uma bailarina ao som da música The World Spins, cantada por Julee Cruise e escrita pela dupla David Lynch & Angelo Badalamenti para o seriado Twin Peaks, e que é hoje considerada a mais emocionante cena de dança a história do cinema.
: : 7 - Importados
Na verdade, The Company só poderá ser apreciado por quem comprar o DVD importado, pois o lançamento brasileiro da Playarte é simplesmente medonho. Além do ridículo título em português de De Corpo e Alma, o DVD nacional tem uma imagem horrível e granulada em tela cheia que corta bons pedaços da cena original: ou seja, você só conseguirá ver metade da imagem de cada cena na tela, o que é muito frustrante e acaba com o filme. A boa notícia é tanto o DVD importado de The Company como vários outros DVDs americanos dos filmes de Robert Altman podem ser comprados no Brasil por cerca de R$ 50,00 cada um no site www.cdpoint.com.br - uma verdadeira pechincha.
: : 8 - Nashville, A Obra Prima
Um dos filmes de Robert Altman que podem ser comprados em DVD importado é Nashville, de 1975, que é considerado a obra-prima do cineasta e que é simplesmente fascinante. Com duas horas e meia de duração, a trama passeia entre 24 personagens que, por algum motivo, encontram-se durante cinco dias na cidade de Nashville (a capital da música country). O filme tem a raríssima característica de surpreender o espectador a cada vez que é revisto, pois sempre podemos notar novos detalhes, novas nuances nos personagens, novas tramas paralelas e novos significados para situações que anteriormente passaram despercebidas – como por exemplo as participações especiais de Julie Christie (a estrela de McCabe & Mrs. Miller) e Eliot Gould (de M*A*S*H*) ou a verdadeira personalidade da personagem Linnea, vivida magistralmente por Lily Tomlin. Até então, Lily era uma atriz de comédiazinhas de TV, e foi Altman que percebeu seu potencial como atriz dramática. Sob a direção do mestre, Lily Tomlin brinda o espectador simplesmente com a melhor interpretação que eu já vi na minha vida, na cena em que Keith Carradine canta a música I´m Easy (e veja bem: nesta cena, a personagem Linnea não aparece em close-up, não fala e praticamente nem se move – então, imaginem o talento de Lily Tomlin e de Robert Altman para fazer desta uma interpretação tão marcante).
: : 9 - Atores/Compositores
Em Nashville, Robert Altman pediu que os próprios atores compusessem músicas (letra e melodia!) para seus personagens e para o filme, coisa que somente um elenco competente, integrado e bem dirigido conseguiria fazer de forma satisfatória. E o resultado foi na verdade mundo além disso: a trilha sonora ficou tão boa e tão original que é praticamente o 25º personagem no filme, e a música I´m Easy, além de ganhar um Oscar e um Golden Globe, chegou a ficar por um bom tempo em primeiro lugar nas paradas de sucessos da época.
: : 10 - A Prairie Home Companion
Neste seu último filme (lançado no Brasil com o nome de A Última Noite), Robert Altman conta a história da última transmissão de um programa de rádio ao vivo – mas é lógico que o roteiro complexo e cheio de detalhes fala muito mais do que isso. Parece que Altman já sabia que este seria seu último trabalho, e fez de A Prairie Home Companion sua despedida – tanto que muitas cenas nos levam às lágrimas justamente porque não conseguimos distinguir se os atores estão atuando ou se estão falando diretamente com Altman, dando a ele o seu adeus. Além disso, as músicas cantadas (ao vivo, sem playback!) pelo elenco estrelar ajudam a criar uma atmosfera emocionante de rara intimidade e beleza. Realmente, o Oscar especial e a homenagem que Altman recebeu no início deste ano foram mais do que merecidos. Afinal, ao logo de sua carreira, ele já havia sido indicado a sete Oscars por cinco filmes: em 2001 por Gosford Park, em 1993 por Short Cuts, em 1992 por O Jogador, em 1975 por Nashville e em 1970 por M*A*S*H. O release oficial da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dizia que na cerimônia deste ano Robert Altman receberia um Oscar pelo conjunto de sua obra pois seus filmes constantemente renovaram a linguagem cinematográfica e inspiraram novos cineastas. Mas a verdade é que Robert Altman serve de exemplo e inspiração para todos nós. E sua obra, imortalizada pela sétima arte, continuará surpreendendo, entretendo e emocionando a humanidade para sempre.
: : Filmes lançados no Brasil
Entre as mais de 80 produções de Robert Altman, é incrível a pouca quantidade de filmes dele que existem hoje no Brasil em DVD (por isso a melhor opção é mesmo procurar pelos DVDs importados). Além de A Prairie Home Companion, que deve chegar no início de 2007 às prateleiras das locadoras do país, apenas outros cinco filmes de Altman foram lançados comercialmente por aqui. A seguir, uma listinha com estas dicas, para você procurar na locadora:
M*A*S*H*
(Idem. 1970, 116 min.)
Com movimentos de câmera inovadores, texto improvisado e uma trama sem linha mestra aparente, M*A*S*H* foi o filme americano mais popular da década de 1970 e tornou imortais personagens com nomes esquisitos como Hawkeye, Painless e Hot Lips. O DVD traz um excelente documentário mostrando curiosidades sobre a produção e a influência de M*A*S*H* na história do cinema.
Jogos & Trapaças - Quando os Homens São Homens
(McCabe & Mrs. Miller. 1971, 120 min.)
Apesar do estranho título em português, o filme trata na verdade do relacionamento entre os personagens do título original, John McCabe e Constance Miller, que montam um prostíbulo nas montanhas americanas na época da corrida do ouro. Tendo como locação apenas um vilarejo no meio da neve, McCabe é interpretado pelo galã Warren Beatty e Mrs. Miller é vivida pela bela Julie Christie, que pelo papel recebeu sua segunda indicação ao Oscar de melhor atriz.
Dr. T e as Mulheres
(Dr. T and the Women. 2000, 122 min.)
Um charmoso e rico ginecologista texano vivido por Richard Gere enfrenta complicadas situações quando é obrigado a lidar com uma esposa nervosa, uma secretária apaixonada, uma possível futura amante e uma filha sexualmente confusa. O filme conta com um grande elenco feminino e tem nomes como Liv Tyler, Kate Hudson, Laura Dern, Helen Hunt e a eterna musa Farrah Fawcett.
Assassinato em Gosford Park
(Gosford Park. 2001, 137 min.)
Na Inglaterra dos anos 30, um grupo de pessoas hospedadas em uma mansão é o foco de uma trama cheia de intrincados mistérios. Protagonizado pela dama do teatro inglês Maggie Smith e por um elenco de estrelas que trabalharam de graça, o filme é uma homenagem de Robert Altman ao cineasta francês Jean Renoir e sua obra-prima A Regra do Jogo, de 1939.
De Corpo e Alma
(The Company. 2003, 112 min.)
Como já falei sobre este filme no 6º parágrafo deste artigo, só resta dizer que The Company é extremamente realista ao mesmo tempo em que consegue nos levar para um mundo de fantasia sem usar qualquer tipo de fórmulas prontas ou clichês. E por isso mesmo, é uma obra que deve ser vista e revista por todas as pessoas que gostam do bom e verdadeiro cinema. Mas lembre-se: o DVD brasileiro lançado pela Playarte é de má qualidade e contém cortes, e o ideal é assistir a este filme na versão original que só é encontrada no DVD importado.
I’m Easy – para terminar, dedico este artigo para Iuri Marcelo – também conhecido simplesmente como ‘Lorão’ – e finalizo o texto com a letra da música que Keith Carradine canta em Nashville.
I’m Easy
It's not my way to love ya just when no one's lookin'
It's not my way to take your hand if I'm not sure
It's not my way to let ya see what's goin' on inside of me
When it's love you won't be needing, you're not free
Please stop pullin' at my sleeve if you're just playin'
If you won't take the things you make me want to give
I never cared too much for games and this one's drivin' me insane
You're not half as free to wander as you claim
But I'm easy, yeah I'm easy
Give the word, I'll play your game
As though that's how it oughta be
Because I'm easy
Don't lead me on if there's nowhere for you to take me
If lovin' you would have to be a sometime thing
I can't put bars on my insides - my love is somethin' I can't hide
It still hurts when I recall the times I've tried
But I'm easy, yeah I'm easy
Take my hand and pull me down
I won't put up any fight
Because I'm easy
Don't do me favors, let me watch you from a distance
'Cause when you're near I find it hard to keep my head
And when your eyes throw light at mine, it's enough to change my mind
Make me leave my cautious words and ways behind
That's why I'm easy, yeah I'm easy
Say you want me, I'll come runnin' without takin' time to think
Because I'm easy, yeah I'm easy
Take my hand and pull me down
I won't put up any fight
Because I'm easy, yeah I'm easy
Give the word, I'll play your game
As though that's how it oughta be
Because I'm easy