Nos idos anos 80...
Meu Amor de Verão
19.12.06 : : Marcos Alexandre mar.ale@terra.com.br
Divulgação
Filme fala sobre duas garotas que se apaixonam durante um verão no interior da Inglaterra

Um amor de verão
Tem um sol particular
Queima a boca até rachar
Não tem meio coração
Um amor de verão
Vem com tudo a favor
Foge em ondas de calor
E tem outra vibração

Quem já passou da adolescência há algum tempo lembra bem destes versos, da gostosa baladinha Um Amor de Verão, da banda Rádio Táxi. E quem não viveu os anos 80, deve conhecer esta mesma música pela nova versão na voz do franguinho Felipe Dylon. Mas há uma diferença importante: enquanto a música de Dylon é superficial, a versão original do Rádio Táxi traz um contexto de uma época onde o mundo era mais fácil e mais romântico, todos os sonhos pareciam possíveis e todo mundo assistia à Armação Ilimitada só para ver os então gatíssimos André di Biase e Kadu Moliterno sem camisa.

É deste clima ingênuo e esperançoso que nos lembra o início do filme Meu Amor de Verão, produzido em 2004 e lançado recentemente no Brasil em DVD pela Europa Filmes. Dirigido pelo polonês Pawel Pawlikowski, o filme fala sobre duas garotas que se conhecem durante um verão no interior da Inglaterra. Mona é uma moça pobre, descuidada e sem futuro, e Tamsin é uma menina culta, mimada e rica. Na entrevista contida nos extras do DVD, a atriz Nathalie Press (que interpreta Mona) diz que elas são como Romeu e Julieta: duas pessoas que vêm de mundos diferentes e que nunca deveriam se conhecer - mas que inevitavelmente se encontram e se apaixonam.

Em nenhum momento o filme mostra onde a trama é passada, e nem em que época (ninguém usa computador nem telefone - muito menos celular). É daí que vem aquela gostosa sensação inicial de juventude e de inconseqüência dos anos 80. Mas logo percebemos que há algo diferente, e que o filme tem a sua própria "vibração": a câmera frenética em estilo documental parece gritar contrapondo-se à narrativa densa e intimista – fato que surpreende agradavelmente à quem aprecia as características criativas de uma produção cinematográfica e que avisa que há muito mais do que apenas romance no ar.

Somente assistindo às entrevistas com o diretor e o elenco descobrimos que a trama se passa em Yorkshire no tempo presente, e que o filme foi feito de maneira cuidadosa e experimental. Além de um processo trabalhoso de oito meses para escolher os atores, Pawel Pawlikowski foi iluminado na direção e no uso de cenas e diálogos improvisados. Na verdade são estas as características que dão ao filme o seu sol particular,  transformando o que parece um romance cheio de clichês em uma obra de arte merecidamente premiada e que surpreende do começo ao fim e em todos os sentidos (inclusive na trilha sonora, que mistura Edith Piaf com Goldfrapp e Gilberto Gil &
Caetano Veloso).

Na verdade, a idéia de romance água-com-açúcar nem faz parte da concepção original do filme, pois seu título original é My Summer of Love - ou seja, "meu verão de amor", que tem uma conotação bem diferente do que é sugerido no título um tanto enganoso em português.

Veja o que acontece entre Mona e Tamsin, e você vai entender bem a diferença das palavras.

E já que falamos em diferença... na regravação da música do Rádio Táxi, Felipe Dylon mudou um verso. Onde a música originalmente diz "quando ao fundo eu te vejo dentro do maiô", Dylon canta "quando ao fundo eu te vejo dentro duma onda". Ou seja, na versão original, o rapaz nitidamente canta sobre o amor por uma garota. Mas na versão de Dylon, o sexo é propositalmente indefinido... será que ele fez a mudança pensando em algum
surfista gostosão?

My Summer of Love, de Pawel Pawlikowski. Reino Unido, 2004. 86 min.

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