C.R.A.Z.Y.: ser louco
é ser saudável
12.12.06 : : Marcos Alexandre mar.ale@terra.com.br
Divulgação
Podemos assistir a C.R.A.Z.Y. indo a uma das poucas salas de cinema que o exibem

Há poucas semanas, como parte da 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, finalmente chegou ao Brasil o filme C.R.A.Z.Y., produzido
no Canadá em 2005 e já muito comentado na internet há um bom tempo. Neste ano de 2006, o filme ganhou 11 prêmios Genie (o "Oscar"
canadense) e mais 19 prêmios em outros festivais.

Nós que moramos em terras tupiniquins podemos assistir a C.R.A.Z.Y. indo a uma das poucas salas de cinema que o exibem, ou podemos esperar
o lançamento em DVD nacional - ou ainda, podemos comprar o DVD importado por cerca de R$ 200,00 (há também outra opção, mas você é
esperto o suficiente para sacá-la sem que eu tenha que descrevê-la, certo?!).

E já que estamos falando em terras tupiniquins... mais uma vez, uma distribuidora brasileira tenta cometer um assassinato e impedir que as pessoas se interessem por assistir a um filme, rebatizando-o com um título em português simplesmente medonho - neste caso, "Loucos de Amor". Mas esqueça este horroroso crime, e não se deixe enganar pela biba enrustida, infeliz e mal-amada que inventou este ridículo nome em português: C.R.A.Z.Y. é na verdade um ótimo filme e você deve assistí-lo.

O título original é uma referência à famosa música homônima escrita pelo lendário Willie Nelson e imortalizada na voz da musa Patsy Cline, morta em um acidente de avião em 1963. Além disso, cada uma das letras (C, R, A, Z e Y) representa a letra inicial, em ordem cronológica, do nome de cinco irmãos - dentre os quais está Zachary, o quarto filho do casal Gervais e Laureanne e personagem principal da trama.

Zac nasce na noite de Natal de 1960 e o filme o acompanha até a década de 1990, quando ele já está com mais de 30 anos de idade. A maior parte da ação, no entanto, se passa nas décadas de 1970 e 1980, com direito à trilha sonora que inclui David Bowie, Pink Floyd, Jefferson Airplane e até os imortais The Rolling Stones. A música, aliás, é importantíssima na trama, e os direitos autorais das canções representaram uma grade parte do orçamento do filme - que na verdade lembra muito o formato do cinema independente americano, onde um bom roteiro, boas atuações e uma direção dedicada são mais importantes que locações extravagantes e efeitos especiais mirabolantes (se bem que C.R.A.Z.Y. tem uma direção de arte magnífica, e até um ou dois efeitos especiais bem bonitinhos).

Mas voltemos a Zac: na fase jovem, o personagem é interpretado pelo gatíssimo Marc-André Grondin. Segundo o Internet Movie Database, Marc-André (que também é músico e começou a carreira de ator aos 3 anos de idade em comerciais de TV) é conhecido como "o Gael García Bernal do Canadá". E o título não é nada exagerado: além de bom ator, o rapaz é sexy e charmoso e tem um corpo fisicamente perfeito (confira nas cenas dele sem camisa!).

Desde pequeno, Zac percebe que é "diferente" dos outros meninos. Nós gays sabemos muito bem o que é isso, e nos identificamos imediatamente com o personagem. Mas Zac vive há décadas passadas, e em uma família católica de classe operária - ou seja, assumir sua verdadeira orientação sexual não é tão fácil, e ele sofre até conseguir ser honesto consigo mesmo. Assim, vemos novamente todos aqueles tabus e idéias antigas de "opção", "doença", etc... e vemos também como estas idéias são realmente bobas, ignorantes e ultrapassadas, e devem pertencer unicamente a um passado bem distante de todos nós.

Em uma entrevista ao site RainbowNetwork, Jean-Marc Vallée, (produtor, roteirista e diretor de CR.A.Z.Y., e que não é gay), diz que escreveu o filme durante quatro anos, baseado nas memórias de seu amigo homossexual François Boulay, que começou a ter um relacionamento afetivo com sua família apenas no dia do enterro do seu irmão, que cometeu suicídio. Vallée quis então fazer um filme em que os personagens são "reais" - ou seja, não há pessoas "boas" ou "más": há
apenas gente normal, vivendo o dia-a-dia com suas próprias contradições. Diz Vallée: "C.R.A.Z.Y. é uma fábula mística sobre a alma humana, com toda a sua loucura e beleza. Isto é o que é interessante no ser humano: nós não somos perfeitos, e esta é a nossa beleza. Ser louco é ser saudável."

Em suma, C.R.A.Z.Y. nos ensina uma lição muito simples, porém nem sempre lembrada: o mundo é um reflexo de nós mesmos. Quando simplesmente nos aceitamos, os outros também nos aceitarão como somos.

C.R.A.Z.Y., de Jean-Marc Vallée.
Canadá, 2005. 127 min. Site oficial: www.crazyfilm.ca

: : O filme C.R.A.Z.Y. foi gentilmente cedido a este colunista por Jefferson Wille Kielwagen.

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