Há poucas semanas, como parte da 30ª Mostra Internacional de Cinema de
São Paulo, finalmente chegou ao Brasil o filme C.R.A.Z.Y., produzido
no Canadá em 2005 e já muito comentado na internet há um bom tempo.
Neste ano de 2006, o filme ganhou 11 prêmios Genie (o "Oscar"
canadense) e mais 19 prêmios em outros festivais.
Nós que moramos em terras tupiniquins podemos assistir a C.R.A.Z.Y.
indo a uma das poucas salas de cinema que o exibem, ou podemos esperar
o lançamento em DVD nacional - ou ainda, podemos comprar o DVD
importado por cerca de R$ 200,00 (há também outra opção, mas você é
esperto o suficiente para sacá-la sem que eu tenha que descrevê-la,
certo?!).
E já que estamos falando em terras tupiniquins... mais uma vez, uma distribuidora brasileira tenta cometer um assassinato e impedir que as pessoas se interessem por assistir a um filme, rebatizando-o com um título em português simplesmente medonho - neste caso, "Loucos de Amor". Mas esqueça este horroroso crime, e não se deixe enganar pela biba enrustida, infeliz e mal-amada que inventou este ridículo nome em português: C.R.A.Z.Y. é na verdade um ótimo filme e você deve assistí-lo.
O título original é uma referência à famosa música homônima escrita
pelo lendário Willie Nelson e imortalizada na voz da musa Patsy Cline,
morta em um acidente de avião em 1963. Além disso, cada uma das letras
(C, R, A, Z e Y) representa a letra inicial, em ordem cronológica, do
nome de cinco irmãos - dentre os quais está Zachary, o quarto filho do
casal Gervais e Laureanne e personagem principal da trama.
Zac nasce na noite de Natal de 1960 e o filme o acompanha até a década
de 1990, quando ele já está com mais de 30 anos de idade. A maior
parte da ação, no entanto, se passa nas décadas de 1970 e 1980, com
direito à trilha sonora que inclui David Bowie, Pink Floyd, Jefferson
Airplane e até os imortais The Rolling Stones.
A música, aliás, é
importantíssima na trama, e os direitos autorais das canções
representaram uma grade parte do orçamento do filme - que na verdade
lembra muito o formato do cinema independente americano, onde um bom
roteiro, boas atuações e uma direção dedicada são mais importantes que
locações extravagantes e efeitos especiais mirabolantes (se bem que
C.R.A.Z.Y. tem uma direção de arte magnífica, e até um ou dois efeitos
especiais bem bonitinhos).
Mas voltemos a Zac: na fase jovem, o personagem é interpretado pelo gatíssimo Marc-André Grondin. Segundo o Internet Movie Database, Marc-André (que também é músico e começou a carreira de ator aos 3 anos de idade em comerciais de TV) é conhecido como "o Gael García Bernal do Canadá". E o título não é nada exagerado: além de bom ator, o rapaz é sexy e charmoso e tem um corpo fisicamente perfeito (confira nas cenas dele sem camisa!).
Desde pequeno, Zac percebe que é "diferente" dos outros meninos. Nós
gays sabemos muito bem o que é isso, e nos identificamos imediatamente
com o personagem. Mas Zac vive há décadas passadas, e em uma família
católica de classe operária - ou seja, assumir sua verdadeira
orientação sexual não é tão fácil, e ele sofre até conseguir ser
honesto consigo mesmo. Assim, vemos novamente todos aqueles tabus e
idéias antigas de "opção", "doença", etc... e vemos também como estas
idéias são realmente bobas, ignorantes e ultrapassadas, e devem
pertencer unicamente a um passado bem distante de todos nós.
Em uma entrevista ao site RainbowNetwork, Jean-Marc Vallée, (produtor,
roteirista e diretor de CR.A.Z.Y., e que não é gay), diz que escreveu
o filme durante quatro anos, baseado nas memórias de seu amigo
homossexual François Boulay, que começou a ter um relacionamento
afetivo com sua família apenas no dia do enterro do seu irmão, que
cometeu suicídio. Vallée quis então fazer um filme em que os
personagens são "reais" - ou seja, não há pessoas "boas" ou "más": há
apenas gente normal, vivendo o dia-a-dia com suas próprias
contradições. Diz Vallée: "C.R.A.Z.Y. é uma fábula mística sobre a
alma humana, com toda a sua loucura e beleza. Isto é o que é
interessante no ser humano: nós não somos perfeitos, e esta é a nossa
beleza. Ser louco é ser saudável."
Em suma, C.R.A.Z.Y. nos ensina uma lição muito simples, porém nem
sempre lembrada: o mundo é um reflexo de nós mesmos. Quando
simplesmente nos aceitamos, os outros também nos aceitarão como somos.
C.R.A.Z.Y., de Jean-Marc Vallée.
Canadá, 2005. 127 min. Site oficial:
www.crazyfilm.ca
: : O filme C.R.A.Z.Y. foi gentilmente cedido a este colunista por Jefferson Wille Kielwagen.