Documentário ‘Meu Marido É Gay’
retrata universo dos casados gays

10.09.06 : : Marcos Alexandre mar.ale@terra.com.br

Reprodução/GNT

Vídeo mostra esposas que viram amigas e toleram “escapadas” dos maridos homo

Neste mês de setembro, o canal a cabo GNT exibe no Brasil o documentário “Meu Marido é Gay”, realizado em 2005 pela produtora escocesa Caledonia e que mostra aspectos bem distintos da vida de homens gays que resolveram se casar com mulheres na tentativa de sublimar sua sexualidade – mas que mais cedo ou mais tarde acabaram saindo do armário.

Os primeiros personagens do documentário são Sarah e Matt. Durante o casamento que durou dez anos, Matt freqüentava saunas gays – mas dizia a si mesmo que o sexo entre homens era apenas “uma necessidade física” e se considerava um heterossexual “normal”... até que em conheceu um rapaz por quem se apaixonou.

“Finalmente percebi que tinha que fazer algo a respeito disto”, diz Matt, que só então contou para a esposa que ele era gay. O casal já tinha uma filha, que foi a pedra de salvação de Sarah: “Lilly é a pessoa mais importante nesta história, e eu não fiz nenhuma loucura só porque pensei no bem-estar dela”, diz ela.

O casal então decidiu se divorciar e manter uma relação de amizade, para que ambos possam participar da criação da filha. A mãe de Sarah foi avisada já no dia seguinte, e diz que não tem nada contra Matt por ele ser gay – mas não gosta do fato de que ele tenha mentido por 10 anos para toda a família.

Sobre o casal continuar mantendo uma relação cordial, ela diz: “Minha filha foi forte, e se é assim que ela quer que seja, tudo bem”. No final do segmento, o documentário mostra Sarah indo a uma festa de aniversário de Matt, onde ela é também apresentada ao novo namorado dele. Apesar de toda a amizade e da aparente boa resolução da situação, é fácil perceber que Sarah carrega um resquício de mágoa – e com razão: “Me arrependi de ter casado com ele. No fim, foi ele que partiu, e não eu. As pessoas se esquecem disto. E agora, a cada homem que conheço, fico pensando... ‘será que ele é gay?’”.  

O segundo casal do documentário leva uma vida bem diferente. Depois de 11 anos de casamento e duas filhas, Dave e Sam são amigos de infância e se autodenominam “os verdadeiros Will & Grace”. Quando pediu Sam em casamento, Dave era ainda o jovem alegre com quem ela cresceu.

Com o tempo, ele se transformou em um homem deprimido e passou a beber muito – até que Sam o confrontou e exigiu que ele lhe contasse o que o afligia. Dave então contou que era gay, e que apesar de nunca ter sido infiel no casamento, não agüentava mais sublimar a sua verdadeira personalidade.

A reação de Sam foi inesperada: ela apoiou Dave em todos os sentidos e resolveu continuar casada (e dormindo na mesma cama!) com ele. Eles são honestos com as filhas e cada um tem sua vida amorosa particular: “Quando se ama alguém, deve-se deixá-lo ter os relacionamentos que precisa”, diz Sam. Ela se emociona muito durante um depoimento, quando fala de sua relação com Dave: “ Hoje ele gosta de mim como uma pessoa, e não como um objeto sexual. E você ganha muito mais amor de uma pessoa em uma relação assim do que quando há sexo envolvido”. Quanto ao fato de desconfiar que Dave era gay, ela diz: “Parece que todo mundo sabia – menos eu.”

Já Kevin e Katie não vivem um mar de rosas como seus colegas de documentário – muito pelo contrário. Depois de três anos de namoro, Kevin pediu Katie em casamento, prometendo a ela um mundo de sonhos. Hoje, ela diz: “Ele era sensível e delicado, e me ouvia com atenção. Era bom demais para ser verdade. Eu sabia que algo iria acontecer. E dois anos e meio depois, aconteceu.”

Kevin diz que desde criança sentia que gostava de rapazes, mas não sabia como lidar com isto e resolveu casar com uma mulher Porém, logo depois do casamento, ele deixou de ser o homem sensível e amoroso que conquistou Katie – que passou a sofrer acreditando que havia algum problema com ela.

Certo dia, ela chamou o marido para uma conversa franca: “Contei para ela que eu era gay e fechei os olhos esperando que alguma coisa me atingisse... mas em vez disso senti os braços dela ao meu redor”, conta Kevin emocionado. Mas apesar da reação inicial, Katie e Kevin não mantiveram a relação em bons termos e já não se vêem há alguns  anos. Quando contou para as amigas sobre marido, Katie diz que ouviu comentários do tipo “Então é este o tipo de efeito que você tem sobre os homens?”. “Eu fui usada, me sinto um fracasso”, diz ela, que continua solteira. Kevin vive em outra cidade com o namorado, mas sente-se muito mal pela situação de Katie. Em seus depoimentos, ambos choram: ela pela mágoa e ele pela culpa.

O último personagem do documentário é o simpático Vijay, um indiano de 48 anos que, como manda a tradição, teve seu casamento arranjado. O relacionamento durou 13 anos, e acabou quando a mulher descobriu que ele mantinha um caso com outro homem. Mas o casal manteve a história em segredo, e mais 10 anos se passaram até que Vijay tivesse coragem de sair do armário definitivamente.

Ele começou contando que era gay para a sua filha mais velha, que hoje diz: “Uma criança sempre sabe o que está acontecendo... mesmo que não entenda as palavras exatas, ela sabe que há algo de errado no casamento dos pais.” Quando Vijay finalmente resolveu contar a verdade, tanto tempo depois, todos os filhos o aceitaram – e até o incentivaram a começar a ter uma vida social ativa: “Minha filha praticamente me obrigou a ir com ela à Parada Gay”, conta. Ele também lamenta o tempo em que passou solitário por puro preconceito: “Eu não conseguia nem pensar em estar no mesmo ambiente onde pudessem aparecer homens afeminados. Demorou para eu perceber que esta era uma falha minha, e não deles”.
 
Serviço
Meu marido é gay (My husband is gay)
Estréia dia 27/09, 21h.
Horários alternativos: dia 28/09, 01h45 e 12h30.
www.gnt.com.br

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