Opinião
BRASIL DE CORES ARDENTES

Ex-repórter do ParouTudo envia da França sua opinião sobre a diversidade de posturas do Brasil frente a homossexualidade

21.01.06
Por Hugo Lima

 

Le Brésil, paradis des corps, se jette dans les bras du renouveau charismatique. Derrière la façade de liberté sexuelle se cache une autre realité moins gaie... (Hervé Ségata)

Em francês: O Brasil, paraíso dos corpos... Por trás da liberdade sexual se esconde uma outra realidade menos gay.”

Algumas realidades do Brasil, apesar dos conceitos estereotipados, começam a serem descobertas pelo europeu, pelo menos em relação a vida gay. Bastante evidente para nós brasileiros, a nossa incrível diversidade e força de vontade para provocar mudanças em nossa realidade gay dão inicio a quebra de pré-conceitos estabelecidos aqui no ‘no velho continente’.

Foi necessário reunir dois milhões de pessoas nas ruas de São Paulo na Parada Gay de 2005 para que os olhos, não só dos ‘francofones’, mas do mundo, chamassem a atenção dos que achavam que de norte a sul do Brasil para ser homossexual bastava passar em uma loja e comprar algumas plumas e acessórios para travestismo! Na França, quando há alguém esquisito e os franceses não conseguem identificar o sexo devido à androgenia ou travestismo, eles dizem que é um brasileiro. Mesmo tipo de brincadeira que fazemos para quem não toma banho e passa perfume e chamamos de francês.

A imagem do homossexual brasileiro é derivada de algumas partes de nossa cultura, tão diversificada, mas que não é mostrada na sua totalidade, e o que acaba gerando aqui um pensamento que é sobreposto sobre todo comportamento dos habitantes da terra do carnaval.

O obvio!

Jamais levada em consideração a grande extensão de nosso território descobre-se que existe uma enorme diferença na aceitação dos gays entre o norte e o sul.

O sul moderno e relativamente aberto contrasta com o norte, pobre e tradicionalista, onde ser gay ainda é motivo de marginalização e de atos de violência homofóbica. Trecho de uma reportagem da revisa francesa Préf Mag, se referindo ao Brasil.

Ricardo, 27 anos, residente em Rio Branco, comenta na reportagem: “Nós estamos longe do ambiente desenvolvido e das praias cariocas. A aceitação dos homossexuais é feita por informação e educação, numa cidade pobre e recuada do centro como a nossa, nos sofremos graves preconceitos nutridos pela falta de informação.” O entrevistado não freqüenta o meio de sua cidade, diz ser lugar de afeminados e prostitutas e sonha mudar-se para o sul do Brasil.

Sem querer entrar no fato de que podemos mudar a mentalidade global brasileira a partir dos gays-indivíduos (opinião pessoal), o trecho entre aspas acima já estabelece a primeira noção de mudança no pensamento mundial sobre os verde-amarelos. Antes tida como homogenia e liberal do Oiapoque ao Chuí.

Um dos motivos curiosos observados nessa mudança latente do pensamento em relação ao Brasil é atribuído a repressão que vivemos diretamente ligada as enormes influências religiosas da igreja católica e protestante anti-gay. Umas das maiores, a Assembléia de Deus, com oito milhões de fieis propõe um mórbido programa de reconversão à heterossexualidade.

Um forte ‘lobby’ da igreja no seio das instituições políticas de Brasília é o principal fator que retarda a instauração da lei sobre união civil para casais do mesmo sexo, proposta por Marta Suplicy em 1990, a qual nunca teve debate em uma sessão parlamentar.

Em alguns aspectos podemos considerar positivas as influências da região sul em relação as outras regiões do país. Márcio, jurista gay de Porto Alegre diz que o vento (fresquinho) de liberdade que sopra nas megalópoles do sul poderia alcançar as zonas reclusas do nordeste.

Em contra partida ao pensamento da igreja um vetor de abertura de mentalidade, a impressa, gera uma nova consciência sobre o assunto. É o caso da revista Veja, quarta revista mais lida no mundo, oferece regularmente uma visibilidade as reivindicações GLBT. Nota-se que a revista G  Magazine, com cem mil exemplares, todo mês, conta com mais leitores por exemplar que a mítica Play Boy. E das nossas sacro-santas novelas que de vez ou outra dão espaço para personagens homo.

E finalmente todos notam que no Brasil a tão pregada liberdade sexual sai do status de aberta e libertária e cai um degrau, ou seja, uma sociedade em abertura e que tem muito a conquistar.

 

  Hugo Lima
Um dos primeiros colaboradores do ParouTudo, está cursando a faculdade de Letras na França por um convênio entre a Universidade de Brasília - UnB e a Université de Nancy.

 

 

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