
Um achado. Essa é a melhor palavra para expressar como o Finíssimo, site da mesma família do ParouTudo, encontrou por acaso o artista faz-tudo Eurico Rocha enquanto produzia o editorial para o alto verão brasiliense missãoBrasília#1, no recém inaugurado Complexo Cultural da República.
Naquela ocasião, nosso editor-chefe propôs uma conversa posterior com Eurico, que resultou nesta reportagem. Debaixo de uma das rampas do museu-espaço-nave de Niemeyer, ao som da musa grega Irene Papas, entre recortes de jornais, croquis e muitas fotos, este repórter passou mais de quatro horas esmiuçando a vida desse estilista-cineasta-artista-filósofo-político-gay-assumido que é a cara de Brasília: pura vanguarda e uma mix de tudo que é contemporâneo.
Nos anos 70, Eurico Rocha formou o movimento “Cabeças”, ao lado de artistas da cidade como Nicolas Behr e Hermuche. Como estilista no-vai-e-vem de Paris, fez coleções futuristas na década de 80 e desenhou figurinos de peça de teatro e para artistas como Cássia Eller. Foi chamado de 'Saint Lauren das selvas' pelos jornais da época.
Ainda nos anos 80, Eurico produziu uma coleção-movimento batizada de Futurismo Candango, toda metalizada e cheia de franjas. Foi um sucesso. Todos publicaram, comentaram. O desfile foi na escadaria em espiral do Teatro Nacional, como looks moderníssimos e teve Grace Jones com trilha sonora. Suzy Capó, diretora do festival Mix Brasil, usou figurino assinado por ele quando atuava na cidade [Suzy morou 20 anos em Brasília]. Que pena que muita gente não saiba disso.
Da moda, Rocha foi para o cinema. Fez a direção de mais de 40 filmes. Em um de seus curtas, dirigiu a atriz global Mariane Vicentini, atual primeira dama do DF, em uma história pra lá de futurista. Em ‘Trrudo’ (onomatopéia do barulho do motor da nave espacial), Mariane interpretava uma extraterrestre que chegava a civilização do futuro: Brasília.
Como era a noite gay da época? Você dava muito close?
Naquela época existia a Aquarius no Conic, que era um ambiente social da noite para todas as tribos, onde as pessoas desfilavam seus modelitos e faziam sua ‘body art’. Todos faziam meio que uma performance. Eu, por exemplo, fui várias vezes de patins para a boate.
Como você foi parar na moda?
Depois de um tempo como artista plástico me toquei que já havia feito minha parte para a arte da cidade. Fazíamos mais eventos que a própria Secretaria de Cultura [diz referindo-se ao ‘Movimento dos Cabeças’, clã cultural de onde saíram artistas como Oswaldo Montenegro]. Então resolvi fazer moda porque não havia ninguém fazendo moda candanga. Existia apenas o Sr Nunes na W3 sul e o Walmir Santana [hoje WS Coture]. Ou então os figurinistas de loja de tecido como o Ivan ou a Dona Terezinha que fazia vestidos de noivas. Mas não tinha um estilista com uma estética candanga.
Fale sobre seu primeiro desfile. Teve uma travesti?
Vesti as manequins com papel kraft. A Cláudia Celeste, uma travesti brasileira linda, abria o desfile, mas ninguém sabia ou percebia. Também tinha uma modelo búlgara, a Solveig Dommartin ainda jovemzinha, que era trapezista e depois foi estourar como atriz em ‘Asas do desejo’. O cabeleireiro tocava flauta transversal. E eu apresentei minha coleção de mini saias de paetê – um ‘modern chic’ que era um ambiente do Rio que eu levei de quando eu trabalhei com o Marquito. O paetê era uma herança dele, ele foi um grande estilista que trabalhou na Casa Magrella, fez roupas para Sônia Braga e Michael Jackson. Só que eu fiz uma releitura, porque o Marquito usava muita ombreira, era muito ‘show business’. Então eu grafitava as camisas com lápis e as bordava com esse paetê. Só que ninguém comprava, era muito diferente de tudo.
Mas como você deu continuidade a isso?
Era muito difícil comercializar minhas coleções. Tentei muitas vezes vender para estilistas famosos como Yves Sant Laurent, porque é usual que os ‘peixes pequenos’ vendam suas idéias para os ‘peixes grandes’ que então compram e assinam a idéia como sendo deles. Mas isso não deu certo comigo.
Como foi a repercussão destes trabalhos com moda?
Sempre tive uma repercussão super boa em relação a mídia nacional e aos eventos. Brinco que sou conhecido, mas ninguém me conhece. Coisa de sair na Vogue, a Cristina Franco do Jornal Hoje mostrou uma coleção minha toda de látex. Só não fiz sucesso comercial. Mas isso é mais complicado mesmo quando a gente faz vanguarda, pensa muito em filosofia e muita política. Primeiro a gente deve vestir os reis para depois vestir o povo. Eu fiz tudo ao contrário. Queria fazer algo popular, com um intuito popular, mas não cheguei nas elites com isso e muito menos no povo em si.
Como foi seu trabalho no cinema?
Vixe, fiz tanta coisa! Juntei a arte do figurinista com o artista plástico e fui fazer Direção de Arte. Ganhei o primeiro edital de curtas-metragem com ‘Nayara, a mulher Gorilla”, clássico da cinematografia brasileira na Retomada [entende-se pelo período posterior ao que o Brasil ficou sem produção cinematográfica quando o então presidente Collor extinguiu a Embra Filmes]. Assinei filmes como ‘Araguaia a Conspiração do Silêncio’, presente na 38º edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, fez curtas também como “Anjo da Civilização” em que o ex-top Flávio Zulker atua e o “O Deus da Publicidade” com Rodrigo Santoro, ainda inédito e o não acabado curta com a Mariane Vicentini. E o cinema está sempre na minha vida, nas gravções deste filme “Federal”, utilizaram minha casa como a base da produção.
Como era este curta com a atual primeira dama?
No curta metragem Trruudo (onomatopéia do barulho do motor da nave espacial), Mariane Vicentini interpreta uma extraterrestra que chega a Brasília, a cidade do futuro, a civilização do futuro. Mas não rolou de finalizar. Acabou que nunca cheguei a fazer um filme de ficção científica, mas seria o ideal, né? Mas não fiz porque o futurismo já chegou. É isso: “Bem-vindo à Brasília, bem-vindo ao futuro”. Estamos vivendo o futuro já.
E o que você acha do Clodovil no poder?
É um personagem contemporâneo. Ele é muito inteligente. Ele é uma proposta do homem civilizado porque se faz do anti-herói, mas se preserva conservador. Achava que ele perdia muito tempo em seu programa para falar mal dos outros. Ele tinha que se conscientizar que ele é uma liderança. É um personagem masculino porque tem a coragem, a reação. E tem todo esse apelo estético com as mulheres. Brinco que há muito tempo, indiretamente, fiz uma campanha para Clodovil, e sem que ele me conhecesse mandava a sugestão de que ele se candidatasse. E depois que se elegeu provou que é um cara inteligente e que será um meteoro até seu primeiro discurso em que estará finíssimo em seu terno de alfaiataria e abotoaduras. Um se elege com o apoio dos metalúrgicos, fulano com os bancários, Clodovil não se elegeu com apelo nenhum, mas porque não vamos atrás dele e botamos a moda para ele tocar, para pedir subsídios para a indústria têxtil, pedir pelas bordadeiras, por exemplo. Temos que dar ao senhor excelentíssimo finíssimo Clodovil este conteúdo e fazer este lobby.
O Finíssimo está sendo um abridor: nos esbarramos por acaso e iniciamos um diálogo com uma cena fashion de Brasília, com uma história que as pessoas precisam conhecer e de coisas que precisam se conscientizar.
Você foi à festa? O que achou?