Outing forçado: desnecessário e perigoso
Harry How/GI
Jornalistas opinam sobre a especulação da orientação sexual de Diego Hypólito
Na última semana, dias antes de Diego Hypolito ser ouro no Pan Rio 2007, um e-mail enviado pela Associação da Parada do Orgulho de GLBT de Goiás à imprensa deu o que falar. Léo Mendes, presidente da associação, indagava publicamente se Diego era gay.
As respostas à favor e contra a iniciativa da ONG renderam discussões acaloradas nas listas de e-mail e vários comentários dos leitores dos sites que publicaram a ‘indagação pública’ a respeito da orientação sexual do atleta. O ParouTudo optou por não publicar a nota, mas, sim, um artigo assinado por Léo no dia seguinte, em que ele fala sobre o quanto é importante que homossexuais famosos (chamados de VIPs) se assumam publicamente.
A carta diz que espera um posicionamento de Diego. Se for gay, na pior das hipóteses, o atleta - que até hoje não nega ou confirma nada - poderia se sentir acuado e dizer-se hétero para não correr o risco de perder apoio de patrocinadores e da sociedade. Mas essa é apenas uma das possibilidades. Despreparado, ele poderia se assumir e cometer várias gafes. Então, fica a pergunta no ar: outing forçado, em casos como esse, dá certo?
A seguir, confira as opiniões de dois comunicadores de importantes sites GLS nacionais a respeito do ‘Outing forçado’ e da indagação pública da APOGLBT-GO.
: : A escolha de cada um
Por Erik Galdino, editor do blog Backstage e webmaster do Mix Brasil
Não gosto muito o termo “fora do armário”, mas estou nesta condição desde o começo da minha adolescência. Com apenas 14 anos chamei minha mãe para uma conversa e abri o jogo sobre minha orientação sexual. A casa caiu! Meu pai ficou sabendo no mesmo dia e então o circo estava armado.
Algum tempo depois a situação caiu no esquecimento, na verdade um refúgio que eles encontraram para não se corroerem com a questão que os desagradava, mas me pressionaram a algumas incursões religiosas e psicológicas. Seis meses depois tudo estava como antes.
Aos 17 anos o assunto voltou a tona de uma forma muito chata, meus pais leram algumas conversas que mantinha com um amigo através do quase finado ICQ, mas foi um momento importante, no qual decidi não mais deixar cair no esquecimento que eu gosto de homens.
De lá para cá muita coisa aconteceu. Trabalhei em projetos sociais para conscientização da homossexualidade sob a ótica da realidade e não de uma construção errada que muitos pais e familiares fazem sobre a questão como, por exemplo, achar que todo gay tem vontade de ser mulher e está em fase de transição para ser travesti.
Na ocasião em que estava envolvido com projetos sociais tinha uma opinião muito radical, que todo homossexual deveria rasgar o verbo e gritar aos quatro cantos sua orientação sexual. Incentivava meus amigos próximos a assumir para suas famílias, nos seus ambientes acadêmicos e profissionais.
Hoje entendo exatamente o motivo desse meu posicionamento: eu vivia – e ainda vivo – uma condição que me permite tudo isso. Estudava em colégio bacana, onde ser gay não era problema, estava imerso no mundo gay, quase todos os meus amigos eram homossexuais e vivia em um bairro que dificilmente seria submetido a ações preconceituosas e além disso tudo estava com a minha sexualidade muito bem definida.
Porém nem todo mundo é assim. Sabemos que muitos homossexuais são agredidos verbalmente e fisicamente todos os dias, empresas ainda demitem com base na orientação sexual de seus empregados e a maioria da população brasileira vive em zonas periféricas onde não a violência impera.
E como sempre digo “que bom que o ser humano evolui”. Fico feliz em ter mudado de opinião sobre isso. Não acho de bom tom o posicionamento de militantes que criticam pessoas que estão na mídia e é sabida sua homossexualidade ou bissexualidade de não se assumirem.
Mesmo que públicas, a orientação sexual é uma questão de foro íntimo, assumir ou não é uma decisão pessoal e deve ser respeitada. Se no passado queria ver todo mundo se assumindo, hoje quero as pessoas bem consigo mesmas, bem com sua orientação sexual e sair ou não do armário é uma decisão que deve ser tomada com cautela e avaliado todas as conseqüências que isso pode trazer para sua vida.
“Não saia do armário por pressão, saia por opção”
: : Orientação sexual de celebridades não é de interesse público
Por Roberto Cushman, editor do site e da revista A Capa
É no mínimo risível. Não dá para explicar de outra forma a atitude da Associação da Parada de Goiás, coordenada pelo jornalista Leo Mendes, que também acumula o papel de secretário de comunicação da ABGLT – Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros –, de indagar se o ginasta Diego Hypolito, medalha de ouro no Pan, é ou não gay.
Além de ser invasiva, essa ação fere o direito de privacidade do atleta. Cabe a ele, e somente a ele, cuidar de sua vida pessoal. Diego é um atleta e, se a sociedade deve cobrar algo dele, é que represente nosso país com bravura. Isso, ninguém pode duvidar que Diego faz, e muito bem, diga-se. A medalha de ouro conquistada essa semana serve como prova.
O outing forçado (retirada de personalidades de armário) nada mais é do que especulação sem propósito. A atitude da ONG vai na contramão do movimento gay brasileiro, que atualmente luta pela criminalização da homofobia.
O papel de uma ONG é atuar de forma a propor melhorias para nossa sociedade. Melhorar aspectos da sociedade que ainda estão falhos. É ser voz da população junto ao nosso governo e não indagar a sexualidade de ninguém. Direito de perguntar todo individuo tem, mas uma ONG não. Pelo menos nesse caso. Não cabe a uma ONG inferir o direito de privacidade de alguém.
Uma recente edição da revista americana OUT fez o outing forçado do jornalista Anderson Cooper. Com um modelo usando uma máscara que reproduzia a foto do jornalista, a revista perguntava “Por que nossas estrelas não saem do armário e se assumem?”. Foi duramente criticada. Seu editor, explicou em editorial, que a revista não fez outing forçado, pois essas pessoas já estão envolvidas com o meio gay. Freqüentam lugares gays e saem com seus parceiros em público. Apenas não assumiram para o grande público sua sexualidade. Para ele, isso era tampar o sol com a peneira.
Não podemos negar que personalidades falando abertamente sobre sua orientação sexual seria positivo, no entanto, não podemos forçar nada a ninguém. Deixo aqui um post da vereadora Soninha (PT-SP) em seu blog, no dia 29/6, que ilustra bem a situação:
“Acontece, em São Paulo, o XIV ENTLAIDS – Encontro Nacional de Travestis e Transexuais que Atuam na Luta e Prevenção à Aids. A história do jogador [suposta homossexualidade do jogador Richarlyson] veio à tona na mesa de abertura, e perguntaram pra mim quem eu achava que era. Imediatamente, uma travesti – que é vice-prefeita em uma cidade da Paraíba – se levantou na platéia e gritou: “Não diga! Se ele quiser assumir, é problema dele. A gente não tem de se meter nisso”.
Ali estavam pessoas que comeram o pão que o diabo amassou por conta de sua orientação sexual – e da decisão de serem quem são e como são. São super “assumidas” e defendem obstinadamente os direitos de todo o arco-íris (GLBTTT). Mas que não querem obrigar ninguém a assumir também, em nome da luta, porque sabem o quão penoso pode ser.
Achei incrível. Todo mundo querendo impor alguma coisa a alguém, e elas defendendo o direito sagrado de permanecer no armário.”
: : Texto original – enviado pelo ativista Léo Mendes à imprensa
A Associação da Parada do Orgulho de GLBT de Goiás –APOGLBT-GO está indagando a Diego Hypolito se ele é gay ou não? De acordo com o coordenador da entidade, Jornalista Léo Mendes “ é um direito dele responder ou não, falar sobre isso ou não, e é um dever nosso de perguntar, isso não ofende a honra e a dignidade de ninguém, apenas contribui para acabar com boatos e com disse-me-disse. Esperamos que algum Jornalista que cubra o Pan faça esta pergunta a Diego para acabar com esse suspense no nosso meio ”. A Entidade pretende convidar o maior ginasta brasileiro para ser homenageado e abrilhantar a XI parada do orgulho de GLBT de Goiânia que acontece no dia 09 de Setembro. “Fazemos isso todos os anos, convidamos gente do bem de todas as orientações sexuais: Heterossexual, Bi ou Homossexual, Diego Hipólito é um desses jovens que temos orgulho de ter no Brasil, pela sua trajetória esportiva “, finaliza Léo Mendes.
Para o coordenador da APOGLBT-GO ficaríamos muito felizes se Diego disesse se é Gay, se não for, também o respeitaremos como o maior atleta da ginástica. A idéia de homenagear Diego surgiu depois da identidade e admiração dos gays de Goiania pelo tri campeão do solo. Segundo Léo Mendes, o convite já foi feito no site www.diegohypolito.com.br com a indagação sobre sua orientação sexual. Para Léo Mendes, mesmo que Diego Hypolito não seja gay, ele já tem o respeito da comunidade pois saiu de Santo André –São Paulo há dez anos e conseguiu com sua luta vencer diversos desafios no esporte até se tornar o que é hoje, além de sua obstinada pregação da solidariedade , respeito e companheirismo. “ Seria legal encontramos Diego em locais como a Thermas Lagoa, ou numa balada da Boate The Weekend, ou quem sabe no Parada de Goiânia, mostrando para milhares de jovens e adolescentes Gays que as pessoas podem ser felizes e vencer sendo hetero ou homossexual.”
Na história dos esportes é comum as dúvidas sobre a orientação sexual de atletas. Quando ainda vivo, corria no meio Gay a dúvida se Airton Senna era ou não Homossexual. Há poucos dias o jogador Richarlyson do São Paulo teve sua orientação sexual colocada em público na televisão. Léo Mendes entende que os gays, e não só os heterossexuais gostam muito de praticar ginástica, voleiboll, handboll, natação e muito pouco futebol. Já as lésbicas são fãs da pratica do futebol de grama, do Halterofilismo, e de esportes que envolvam mais dispêndio físico. A APOGLBT-GO admite que a orientação sexual, Homo ou heterossexual de uma pessoa é de caráter íntimo e que Diogo Hipólito não tem obrigação nenhuma de dizer qual é a sua e muito menos de levantar bandeira. De acordo com o Antropólogo Luiz Mott “ é papel do movimento indagar sempre qual é a orientação sexual sobretudo dos VIPS, pois naturalmente, acriticamente, homofobicamente, pressupoe-se sempre, salvo prova em contrario, que todo mundo é heterossexual”. Independente de ser gay ou não, aponta a APOGLBT-GO , Diego deve continuar treinando suas sete horas por dia e trazendo a alegria de todos nós brasileiros.