Famosos [gays] do Brasil
deveriam dar exemplo
Publicado em 19.07.07 : : Léo Mendes especial para o ParouTudo
Arquivo/ParouTudo
Léo Mendes, da ABGLT, diz que é hora dos famosos gays saírem do armário

O movimento de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros do Brasil vive uma presente contradição. Por um lado, ativistas vão para as paradas do Orgulho e pedem em alto e bom som que as pessoas saiam do armário (assumam que são gays, lésbicas ou bissexuais) e que tenham orgulho disso. No outro dia retornam para as ONGs e para as listas virtuais e defendem a tese que forçar o outing (a saída do armário de gays, lésbicas e bissexuais) é uma ditadura.

Afinal, em pleno século 21, 2007 anos depois da vinda de Cristo à terra, esta contradição de algumas lideranças e autônomos do movimento GLBT contribui? Como pode ativistas gays e lésbicas defenderem no movimento negro que os afros não tenham vergonha de sua identidade, de sua cultura, de sua cor, raça, e que assumam ela plenamente e depois, estes mesmos ativistas, virem no movimento GLBT dizer que é um direito as pessoas gays e lésbicas permanecerem encubadas e não assumirem sua orientação sexual.
 
Estamos na contramão da história. O Brasil realiza a maior parada do orgulho do mundo, tem o maior número de ONGs GLBT, mas não consegue, como já acontece nos países desenvolvidos, ter uma política para que atletas, artistas, políticos e aquilo que é chamado de VIPs tenham a coragem de assumir publicamente nos meios de comunicação de massa a sua orientação sexual.

É contraditório e inadmissível que num mundo globalizado, com tanta informação pela internet, tenhamos ainda lideranças GLBT com a visão medieval de que as pessoas famosas têm o direito de se esconder no armário. É acrítica a posição de alguns de que empoderar gays e lésbicas famosos para que digam que são homossexuais é desperdício de energia.

Eu vivi no armário durante 15 anos. Não tive ajuda para sair dele, durante aquela década e meia. Sei bem o que é viver encubado sendo gay ou lésbica. Senti na pele o medo de freqüentar lugares GLS e ser reconhecido. Passei pelo drama de ser extorquido e chantageado em função de viver no armário. Perdi prazeres e amores porque não havia ninguém que me dissesse que é melhor sair do armário, assumir-se, que viver na clandestinidade.Vivi na pele o desespero da depressão e da sensação de que o melhor a fazer era suicidar. Vivi hipocritamente como sendo um heterossexual, sendo um ator nos gestos, nas falas, nas palavras e no desejo. Sofri e não desejo que ninguém passe pelo que passei. O melhor é que as pessoas aceitem sua orientação sexual, assumam e tenham orgulho dela.
 
O momento é outro. Precisamos dizer aos jovens que eles têm que ter orgulho de sua orientação sexual. Que devem beijar e andar de mãos dadas em locais públicos. Que não podem nem devem esconder de seus pais, amigos, colegas a sua orientação sexual. Isso tem que ser dito não só de cima do trio elétrico nas paradas, mas diariamente em nossas oficinas, em nossas entrevistas, em nossas falas.
 
Quando um cantor adolescente mexicano do RDB vem a público e diz que é gay e que é muito feliz, ele está ajudando milhões de fãs a saírem do armário e também está contribuindo para que a transformação social apareça quebrando tabus e preconceitos. Jean Willys sabe bem o quanto foi pedagógico ele como um BBB declarar ao vivo na Globo que é gay e que esta muito feliz com isso. Ele nas suas andanças vê no sorriso de jovens, o quanto o seu ato contribui para que muitos deixassem o armário.

Desejo muito que atletas, artistas e políticos usem da sua força e privilégio de falar em televisão, jornais e digam claramente que são gays e lésbicas e que têm muito orgulho disso. Espero sinceramente que os ativistas repensem sua idéia de defender o armário de pessoas VIPs e que partam para a ousadia da cobrança da verdade da orientação sexual das pessoas. Partamos do discurso para a prática e vamos fazer o Brasil não só o recordista de pessoas em paradas, mas também de pessoas públicas que se assumem homossexuais.
 
*Léo Mendes é secretário de Comunicação da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgeneros (ABGLT).

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