Espiritualidade GLBT:
existem protestantes gays?

Publicado em 04.07.07 : : Patrick Thiago Bomfim e Chris de Oliveira*
Divulgação

Artigo mostra que espiritualidade GLBT sofre com ausência de pesquisas

É notório que o exercício da espiritualidade é um direito garantido através da Constituição Federal do Brasil (artigo 5°- inciso VI) e o não exercício dos direitos assegurados tem sido um problema para os GLBT - Gays, Lésbicas, Bissexuais, Transexuais, Travestis e Transgêneros.

Após uma pré-pesquisa bibliográfica foi possível constatar a falta ou quase total inexistência de pesquisas relacionadas ao tema proposto. As pesquisas encontradas seguem padrões gerais, relacionando os aspectos concernentes aos cidadãos GLBT, mas sem especificar detalhadamente a espiritualidade e religiosidade na vida dos cidadãos GLBT.

No artigo intitulado “Pesquisa Política, Direitos, Violência e Homossexualidade”, de 2005, publicado em 2006 no site da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, constatou-se a dificuldade do presente público em relação ao exercício dos seus direitos em geral, em especial ao pleno gozo da cidadania e a precariedade de projetos de lei resultante da ausência ou déficits de pesquisas e dados.

De acordo com o artigo, um dos aspectos que não favorecem a obtenção de dados significativos é principalmente o fato dos GLBT viverem nos chamados “guetos”, subdivididos em tribos, com grupos de convivências restritos, freqüentando locais como casas privadas, boates e bares que são determinados por estilos de vida, classes sociais, raça/cor, etnia e credo. É importante salientar, que nesta escassez de pesquisas não há uma investigação mais completa em relação à espiritualidade GLBT.

É evidente que a principal matriz do preconceito tem seu núcleo central formado pelas representações religiosas que norteiam as práticas e vivências como normas de conduta moral da sociedade pós-moderna, padronizando o comportamento socialmente esperado pela grande massa em detrimento das minorias.

De acordo com o IBGE, em um texto de Flávio Freire, no censo de 2000, 73,7% da população se denomina católica apostólica romana, formando assim o maior grupo religioso do país, enquanto o segundo maior grupo é formado por evangélicos, com 15,4%. Assim, pode-se afirmar que 89,1% da população brasileira é formada por pessoas adeptas do cristianismo. Destes, quantos recriminariam a espiritualidade GLBT a partir das suas respectivas traduções bíblicas e tradições religiosas?

Atualmente há um grande movimento, que tem sido denominado como “Movimento de Apoio”, vinculado diretamente à união de parte do Congresso Nacional Brasileiro, pelos representantes da Bancada Evangélica e parceiros partidários, somada a algumas igrejas evangélicas espalhadas pelo Brasil. Eles têm produzido manifestos, que apesar de se enquadrarem na Constituição como o direito de livre opinião e manifestação de idéias e crenças, ferem os direitos constitucionais do Grupo GLBT pelo fato de que por conseqüência legitima a violência e os abusos físicos, psíquicos, religiosos e espirituais contra os mesmos. Representa, ainda, um retrocesso na caminhada e luta pela conquista dos direitos humanos, da Organização Mundial de Saúde (OMS) e outras organizações e conselhos, incluindo os conselhos profissionais, como no caso da Medicina e Psicologia.

Este movimento tem como objetivo interferir no desenvolvimento dos Projetos de Lei, como a criminalização da homofobia e a legalização da união gay, entre outros; usando termos como “frear o crescimento do Movimento Queer (Movimento da Diversidade GLBT)”, pois eles acreditam que este tem crescido muito e conquistado espaço no exercício da cidadania, que não está de acordo com seus valores ou crenças, representando, o início de uma guerra santa. Simboliza, portanto, um retrocesso histórico, pois se reproduz, de forma moderna, à histórica “Santa Inquisição” e o castigo, propondo uma espécie de “Fogueira Santa”, para aqueles que não se submeterem a um suposto tratamento de readequação aos padrões heteronormativos e do Cristianismo Conservador/Tradicional.

Entre todos os textos apresentados, divulgados na internet, um dos mais ofensivos aos direitos humanos e cidadãos GLBT, está o texto de Olavo de Carvalho, exposto pelo Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e Política – FENASP, mas que originalmente encontra-se na página eletrônica do próprio autor que direciona o leitor a enfocar a homossexualidade enquanto doença, usando no final do seu artigo o termo “homossexualismo”, utilizando erroneamente o sufixo “ismo”.

Além do “Movimento de Apoio” há vários outros com objetivos similares e que se apóiam mutuamente. Citamos, por exemplo, o Movimento pela Sexualidade Sadia - MOSES:

Buscando ser uma voz de protesto contra qualquer ação ou ensino que promova comportamentos ou idéias ético, moral e espiritualmente prejudiciais à família e à sexualidade conforme o modelo bíblico, o MOSES pretende influenciar a sociedade em seus múltiplos aspectos.

E outros que incitam a violência e ainda associam a homossexualidade à pedofilia, quando na realidade este crime independe da condição sexual, como no caso do texto de Júlio Severo, veiculado pela organização Providafamília:

“O movimento homossexual diz que o homossexualismo [sic] não é crime. Então por que no sistema civil da Bíblia os atos homossexuais eram tratados com a penalidade máxima, juntamente com os crimes mais graves? (...) o único modo de desencorajar essas práticas [*homossexualidade] e trazer alguma proteção contra esses perigos era mediante o uso de leis rígidas. Pode-se dizer, com toda justiça, que é útil o estabelecimento de leis que tratam como crimes às condutas e os atos, sejam homossexuais ou não, que propagam doenças e influências física e moralmente nocivas para as crianças e para as famílias.     
        
Se permitirmos que os ativistas gays influenciem totalmente os meios de comunicação e o sistema educacional com suas idéias incorretas de tolerância, as leis acabarão favorecendo de tal maneira o ‘homossexualiamo’ [sic] que no futuro a oposição dos cristãos à sodomia e à pederastia poderá ser tratada como crime de homofobia. (...) Esse é o futuro que enfrentamos [*o crescimento e o fortalecimento do movimento homossexual], a menos que decidamos agora fazer uma oposição unida e forte contra o movimento homossexual e contra todos os pedófilos mascarados de defensores dos direitos das crianças”. [*acréscimos dos autores do presente projeto apresentado ao PROASE; grifo dos autores]

São necessárias iniciativas que tenham como finalidade contribuir para o fortalecimento preenchimento das lacunas do Programa Brasil Sem Homofobia, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, que implementou diversos projetos e ações, no ano de 2006, em conjunto com a sociedade civil, governos estaduais e municipais, para a prevenção e o combate das ações homofóbicas, como no caso dos Centros de Referência de Prevenção e Combate à Homofobia.

No site do Instituto de Estudos da Religião – ISER, por exemplo, não há nenhum registro de artigos com o enfoque na homossexualidade. Uma única pesquisa relacionada ao tema, realizada pela Associação da 9ª Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, intitulada Política, Direitos, Violência e Homossexualidade - São Paulo, 2005 – com uma amostra significativa de 973 entrevistados, constatou que:

“Em marcado contraste com os dados do Censo 2000, segundo os quais apenas 7,4% dos brasileiro(a)s não freqüentam nenhum tipo de culto religioso, destacamos o significativo número do(a)s que, em nossa amostra, declaram não ter qualquer religião (40,8%). Note-se também que, ao comparar a religião em que o(a) respondente foi criado(a) com aquela que freqüenta atualmente, o número de católicos e evangélicos cai drasticamente, enquanto o número de adeptos de cultos afro-brasileiros e do espiritismo kardecista cresce. Muito provavelmente, a condenação moral à homossexualidade, que caracteriza as religiões cristãs de um modo geral, tem peso importante para essas trajetórias contrastantes. Não por acaso, verificamos que 22,7% de todo(a)s entrevistado(a)s declararam já ter sido vítima de marginalização ou exclusão em ambiente religioso. (p. 24).

Neste universo estatístico específico 73,6% dos entrevistados foram criados na religião Católica, 12% nas denominações evangélicas e 7,6% no Espiritismo. Percebe-se a hipótese de equivalência proporcional correlacionada aos dados do IBGE já apresentados, referente ao quadro religioso nacional.

Tendo em vista este panorama e movimentação da maioria social sob a minoria, observa-se a necessidade em mapear, organizar e potencializar as pequenas organizações nacionais que trabalham diretamente e indiretamente pela espiritualidade GLBT, para que tenham a chance de “sobreviver” em uma instituição tão forte como a Religião, e em seguida, buscar junto a estas organizações cristãs convencionais uma forma mais saudável de desconstrução do preconceito, na busca de um diálogo e construção conjunta para evitar o aumento da violência em decorrência da homofobia, traço presente e marcante, também, nas religiões.

O Ministério Nação Ágape realizou um pré-mapeamento e constatou que encontram-se disponíveis, atualmente, 12 organizações sócio-espiritual independentes/emergentes e denominações cristãs e inclusivas no Brasil. Entre estas igrejas, missões e grupos, há 35 núcleos. Consideramos também um grupo caseiro na cidade do Rio de Janeiro, que não está vinculado a nenhuma organização religiosa formal, e um grupo independente, com estrutura organizacional informal, em São Luís do Maranhão.

Os 34 núcleos estão distribuídos da seguinte forma: 17 no Sudeste, 13 no Nordeste, 4 no Centro-Oeste e um no Sul. Acredita-se que exista um maior movimento religioso inclusivo no Sul, e não há referências de atividades nesse sentido no Norte, por exemplo. Daí a necessidade de realizar um mapeamento mais amplo junto às lideranças espirituais que acolhem os GLBT e que possuem um contato informal com os demais líderes religiosos possíveis que não foram incluídos no mapeamento inicial apresentado, por trabalharem com os mesmos temas e demandas.

Ainda não há como dividir estes núcleos nitidamente por falta de informações e pelas distâncias regionais e estaduais, faltando uma melhor estrutura de comunicação. Solicitamos às pessoas que possuam dados complementares ou comentários que entrem em contato pelo seguinte e-mail: patrickthiago@yahoo.com.br

Ministério Nação Ágape

O Ministério Nação Ágape nasceu em agosto de 2006 e na semana da visibilidade GLBT em Brasília, em junho de 2007, apresentamo-nos à sociedade. Nossas reuniões são descontraídas, com louvor, ministrações e meditações das Passagens Bíblicas. A cada semana, marcamos e nos encontramos em um novo espaço, desde montes de oração, estendendo-se a lugares de lazer, como em meio a uma pescaria esportiva. Contato: Patrick Thiago Bomfim: (61) 9915 – 1305.

*Psicólogos e fundadores do Ministério Nação Ágape

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