‘A Bicharada’ continua
solta no teatro Mapati

Publicado em 26.06.07 : : Pedro Marra
Divulgação
Com jeito de fábula, A Bicharada encerra temporada bem-sucedida no próximo finde

“Por que salvar do dilúvio apenas um casal de cada espécie animal? Por que Noé não levou na arca os animais gays da floresta? Ok, eles ficaram. Mas ela, a mãe natureza, a nossa Noele, construiu sua barca e levou a bicharada para uma floresta encantada, onde toda a história será recontada. Sem preconceito, sem discriminação. A verdadeira história de Adão e Eva, de Tarzan e Jane, dos animais excluídos da Arca de Noé, de uma forma como ninguém nunca viu”, diz o material enviado à imprensa pelo grupo teatral Bicho Piro, como explicação de seu mais novo espetáculo ‘A Bicharada’, que estreou no último fim de semana e termina no próximo domingo.

A peça é resultado de uma oficina que une o grupo O Bicho Pirô e a ONG Estruturação – Grupo Homossexual de Brasília, que tem como intuito levar para o palco uma discussão madura – porém cômica – sobre a temática LGBT.

“A iniciativa é pioneira no Centro-Oeste, já que poucos são os espetáculos que abordam a temática LGBT de uma forma real no teatro”, destaca Hendel. Segundo ele, colocar a realidade homo e trans no palco e transformar essas vivências em histórias de animais, teria a proposta de aproximar o público do lúdico, mexer com a fantasia e, conseqüentemente, provocar a discussão. “Muitos questionam se existe animal gay, mas o que queremos provocar na peça não é exatamente isso. Nossas histórias são humanas, e a parte da floresta, dos animais, só dá um tão de fantasia ao espetáculo”, explica o diretor.

Assim, o espetáculo ganhou um visual mágico e os atores puderam trabalhar suas capacidades teatrais e, principalmente corporais. “Era um musical, então optamos por trabalhar bastante o corpo e deu certo. Eles puderam passear pelo universo animal, testar seus próprios limites. Mas, o mais importante é que não deixamos o foco mudar: estamos levando uma peça para o palco para falar sobre respeito e mostrar que as relações homossexuais são absolutamente iguais às heterossexuais e apenas uma coisa é diferente: quem os vivencia”, explica Hendel.

Com aulas de interpretação, expressão corporal, dança e canto, os alunos tiveram a oportunidade de “ir além” em suas capacidades. No palco, 17 deles – muitos heterossexuais –  mostram no palco a visão conjunta do grupo que acredita que “em uma floresta encantada, habitada por fadas, duendes, e bichos bichas, a história da humanidade pode ser recontada”.

Como funciona o espetáculo

A Bicharada conta, por meio de esquetes, coreografias e músicas, situações vividas pela comunidade LGBT em relação aos seus dramas, anseios e desejos, situações do cotidiano, usando e abusando de um tema de fundo: a floresta encantada.

São 12 cenas e 8 coreografias que constroem uma comédia cotidiana, com pitadas de musical – já que apresenta no palco 17 atores cantando, dançando e interpretando. “Buscamos trabalhar com os conflitos vividos pelos homossexuais que, conforme todos poderão perceber assistindo o espetáculo, não é diferente dos conflitos heteros”, revela o diretor. “Todas as cenas são reais, com situações que já aconteceram ou que poderiam acontecer com qualquer pessoa como, por exemplo, a angústia de um menino que nasce homem e se descobre transexual (que transcende seu gênero, ou seja, se sente mulher). O que ele pensa, como ele vê a sociedade e como a sociedade o vê. Para dar a pitada lúdica, levamos essa realidade usando a figura do leão, que deveria ser o Rei das Selvas. Daí a brincadeira: se um leão se descobre trans, como ele agiria?”, provoca Hendel.

Na peça, as esquetes formam uma narrativa não-linear onde situações de preconceito são mostradas abertamente, desde quando se é criança, na escola, até a conversinha maldosa de duas mães preconceituosas que se reúnem para “buscar a salvação para o filho gay”. “Isso tudo nós mostramos sem fazer uma peça panfletária, sem levantar bandeiras, de uma forma engraçada, mas que vai fazer com que as pessoas assistam, assimilem, parem e pensem sobre tudo, com certeza”, garante Hendel. 

Serviço
A Bichara
Dias 29 e 30 de junho e 1º de julho de 2007
No Teatro Mapati (707 Norte, em frente ao UniCEUB)
Sextas-feiras e sábados, às 21h. Domingos, às 20h.
Entrada franca

*com assessoria

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