Andréa Stefani propõe teoria que mostra o que é ser transexual na atualidade
De uns meses para cá tenho tido pensamentos em busca das grandes revelações às grandes perguntas da vida. Juntamente com esses pensamentos vêem as deduções lógicas. Tenha calma, leitor, você não está diante das lucubrações herméticas de uma filósofa barata. Mas sim diante daquela que formulou a seguinte Teoria: “Não é bom, nem tranqüilo, nem feliz, nem seguro ser transexual, travesti ou transgênero”.
Desde os meus 16 anos ouço as pessoas, dizendo: - “Nossa, Andréa, como você é feminina!” ou “ Está cada dia mais linda e mais mulher...”. A despeito do caráter lisonjeiro das exclamações - eu hoje em dia - não vejo em termos práticos, o que isso pode ser bom ou positivo para mim. Já que ser trans, neste País, quiçá neste mundo, não é algo realmente bom para as próprias trans.
Essa pequena formulação teórica pretende mostrar aos meus leitores que ser trans em si mesmo é algo bom e mágico, mas em contato com o ar social que nos rodeia pode ser um grande desastre!
Motivos em profusão
Sempre incentivei às minhas colegas a plasmarem e expressarem no corpo o gênero ao qual se sentem intimamente ligadas, ou seja, o gênero feminino (travestis e transgêneros) e o papel social de mulher (mulheres transexuais).
Hoje, tenho um cuidado maior ao aconselhar as pessoas. Sei por experiência de vida que não se pode incentivar sem dizer, também, que há pontos muito ruins. Eis os pontos negativos que as futuras transexuais, travestis e transgêneros devem refletir, já que há inúmeras desvantagens em se mostrar feminina ou mulher socialmente, quando se nasce na condição de macho da raça humana, segundo meu Teorema Trans:
I) - Logo cedo, na família, os apelidos e as palavras que machucam começam cedo. A mãe não gosta e o pai não quer que o menino “vire mulher”. Dizem isso claramente e associam o “ser feminino” com tudo que há de pior no universo.
II) - A escola é o pior lugar do mundo para as pessoas como eu! Lá as trans são menos que nada. Conseguem sobreviver se disfarçarem-se de rapazinho. Os alunos, os professores e a instituição querem que você suma das vistas deles.
III) - Nas empresas onde se demanda trabalho e nas possibilidades de emprego formal, o que está implícito (explicito, também!) é que nós, trans , devemos estar e permanecer nas ruas de prostituição – lugar nato e natural para pessoas como a gente.
VI ) – Nos relacionamentos afetivos, o carinha da comunidade do Orkut : “ Sou T-lover e amo as Trans” ou o gente-fina do site de namoro pela internet, não está procurando em você uma namorada. Ele quer apenas transar de graça e com segurança. De preferência, na sua casa, para não gastar com o motel ou as bebidas. E o senhor educado ou o boyzinho da sala de bate – papo virtual não querem entender sua alma ou aliviar suas dores. Ao contrário, eles querem aumentar seu sofrimento, incentivando você a ingerir litros de hormônios ou introduzir silicone industrializado para ter “bundão” ou “peitão”. Daí realizam as fantasias e comem você de graça.
V) - O homem que procura você nas ruas ou nos anúncios de jornais não dá a mínima para o fato de você viver 24 horas “de mulher”. O que ele quer é se satisfazer em você e no dia seguinte, se tropeçar com você na rua, vai virar a cara e fingir que não viu. Aquele cara casado ( a famosa “maricona”) terá sempre - por você , por mim, pelas trans - uma inveja doentia de quem quer ser como a gente mas não teve coragem para ir adiante. Uma mistura doida de admiração e nojo!
VI) – Seus poucos amigos não acham “fofo”e “divino” quando você os visita durante o dia, nas casas ou nos trabalhos, ainda que eles sejam gays. Eles querem falar com você apenas se for pagar as cervejas ou as maconhas dos fins de semana. É, também, mais fácil atrair a atenção dos homens com uma travesti por perto, dá ibope!
Acho que já temos motivos de sobra para não ser trans, né? Juro que não é pessimismo ou surto de arrependimento das minhas três décadas “ de mulher”. É a mais dura realidade!
Querida trans em processo de feminilização: Não se transforme! Não vale a pena! Se der para agüentar consigo mesma, continue “homenzinho” ou só se transforme em casa, na intimidade. Não ouse transpor os limites do gênero nos ambientes sociais. O mundo vai deixar vocês como me deixou: com a certeza de que o mundo é um grande e úmido amontoado de lixo!
Eu sei disso porque estou viva, sou uma transexual e insisto em transitar na sociedade todos os dias.
Beijos.
Andréa Stefani*