Carnaval? Se é manifestação social
parada é, sim, um ato político
Publicado em 17.01.07 : : Eduardo Santarelo
Arquivo/ParouTudo
Quem nunca sofreu de "invisibilidade" não entende a importância das Paradas

Quero propor uma defesa pública, já que tenho recebido diversas "provocações" (no bom sentido) em depreciar as Paradas do Orgulho de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais de todo o país como de fossem “meros carnavais fora de época".

Por já ter sido organizador da Parada de maior visibilidade do Brasil (a de São Paulo) por mais de dois anos, vou expor um ponto de vista sobre o assunto.

Em 1999 eu e meu namorado éramos o que chamamos de enrustidos (cabe dizer que para nós era natural viver no armário, não víamos a exposição de forma natural). Fomos com um casal de amigos “héteros” para um show no Parque do Ibirapuera. Após dançar e pular durante a manhã daquele domingo, decidimos comer no Mac Donald’s da Av. Paulista. Na época, ir para aquela avenida era algo quase que turístico (Óhh! Vamos à Paulista!).

Seguindo a pé rumo à Avenida, começamos a ouvir um som que não era comum. Alguém lembrou que ia acontecer a Parada Gay, não era algo popular, nem bem visto pela sociedade "armário" dos subúrbios de SP.

Eu fiquei agoniado, pois nunca tinha estado em um ambiente com mais de três homossexuais reunidos. Certamente se eu e meu namorado soubéssemos que aquilo estava acontecendo nós não chegaríamos nem próximos. De repente estávamos diante de uma multidão (na época eram 35 mil pessoas) de gays, lésbicas, bis e trans, felizes, cantando, dançando, principalmente músicas dos anos 70 e 80. Pra gente aquele ambiente, naquele momento, era muito ameaçador, nos agredia. Já para nossos amigos héteros era o máximo. Enquanto eles queriam entrar no meio das "bichas" e se divertir, eu e meu namorado queríamos sair dali o quanto antes. Tínhamos medo de sermos “descobertos”!

Naquele momento não entendíamos o significado do sentimento de "orgulho gay" ou "orgulho LGBT". Então, saímos da 3ª Parada do Orgulho Gay de SP tensos, fugidos, com alívio de não estarmos mais lá... Mas as coisas mudaram durante o caminho para casa...

Fomos embora, nos dividimos e segui o resto do caminho sozinho e refletindo.

Saí da Parada com a sensação de ter estado no pior lugar do mundo. Porém, durante o caminho foi “caindo a ficha” e passei a sentir que aquele era um espaço acolhedor, onde nunca imaginei, antes, estar.

Eu, no meu inconsciente, em função da sociedade e de minha bagagem cultural, imaginava que ser gay era algo ruim, triste, jocoso e vergonhoso. Porém, pela primeira vez em minha vida, senti-me acolhido de forma completa. Na Parada eu fui bem recebido, com uma característica ímpar: o evento me mostrou que eu não era meramente alguém, mas era alguém especial que mesmo sofrendo as piores discriminações poderia sair na rua mais importante da cidade e dizer “Eu existo!”.

Usei a minha história apenas para introduzir a importância das Paradas, não apenas na minha vida, mas em um contexto inclusivo de transformação da sociedade, que sempre possui fortes raízes moralistas e preconceituosas.

Quem vê a Parada apenas como "carnaval fora de época" não reconhece ou não entende a transformação de conceitos que ela proporciona numa sociedade que até pouco tempo tinha o "homossexualismo" como doença.

Para fazer uma análise crítica dessa manifestação temos que nos libertar dos pré-conceitos moralistas. E quando digo moralista é no pior sentido possível, aquele da falsa moralidade que existe, e de preconceitos estabelecidos que aprendemos desde quando éramos crianças.

Quem nunca sofreu de "invisibilidade" não entende a importância de uma manifestação afirmativa de visibilidade. Até bem pouco tempo atrás a homossexualidade era marginalizada ao extremo, não se tocava no assunto a não ser de forma pejorativa ou quando se tratava de DST/AIDS.

As Paradas trouxeram, nos anos de 1990, um novo fôlego ao movimento agora denominado GLBT. Nunca se pensou, pesquisou e atuou com tanta força em prol dessa população e desse tema antes na história.

As Paradas são ferramentas inclusivas, que trouxeram e ainda trazem auto-estima a uma população vulnerável, que ainda vive muito marginalizada em seus guetos, mas que aos poucos está se espalhando por todas as esferas da sociedade brasileira.

Segundo a pesquisa "Política, Direitos, Violência e Homossexualidade", realizada na Parada de SP em 2005, com responsabilidade da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo e mais quatro instituições ligadas a universidades, destacou-se: em relação aos motivos de comparecimento na manifestação, cerca de 60% dos entrevistados/as foram à manifestação para que os LGBT tenham mais direitos, cerca de 9% foram em solidariedade de amigos/as ou parentes homossexuais. Ou seja, das pessoas entrevistadas, dentro do universo escolhido aleatoriamente e com base estatística pelos realizadores, cerca de 70% vão às Paradas para reivindicar e celebrar o Orgulho LGBT de alguma forma.

Em relação à Parada ser uma manifestação política sou obrigado a me remeter a Bertolt Brecht e Platão e resgatar que política não é “político” e que qualquer manifestação social é também um ato político. Somente o fato das Paradas existirem e de terem a proposta de levar às ruas uma população que no resto do ano sub-existe, e o evento faz isso da forma mais diversa possível, isso já o transforma em um ato político.

 

*Eduardo Santarelo foi diretor da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo. Atualmente mora em Brasília e é assessor técnico do Programa Brasil Sem Homofobia, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República.

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