Polêmica: produtores denunciam
homofobia de espaços de eventos
Publicado em 08.12.06 : : Thiago Dutra colaborador do ParouTudo
Fotomontagem/ParouTudo
Cancelamento de duas festas por homofobia geram polêmica na noite gay de Brasília

Brasília tem passado nos últimos meses por uma efervescência festiva impressionante. São vários eventos que têm lançado no mercado um leva de novos produtores. O ParouTudo chama o fenômeno de ‘bolha de festeiros’, que tem inflado a cada semana com gente querendo fazer festas em clubes e mansões.

No início de novembro, a ‘bolha’ parece ter estourado e vários produtores desistiram seus eventos alegando que o público estaria cansado e que a concorrência tem atrapalhado a bilheteria. No meio dessa polêmica toda, dois eventos cancelados merecem destaque: a Elite Party e a Festa Life.

O motivo seria um desconforto entre os dois espaços de eventos com o ‘party people’ gay brasiliense. Em ambos os casos, os produtores alegam que tiveram que cancelar suas festas porque os estabelecimentos voltaram atrás e desistiram de alugar seus espaços por se tratarem de festas voltadas para o público.

Sem contrato assinado, os organizadores não conseguiram arrumar um plano B e cancelaram os eventos.

Elite Fashion Party

Marcada para a sexta-feira 1º de dezembro, a Elite Fashion Party aconteceria no espaço da antiga boate Macadâmia, no clube da ASBAC. Igor Andrade, produtor da festa, afirma que o evento não pôde ser realizado por conta do preconceito de uma das responsáveis pela locação do espaço, Cláudia Palet.

“Já havíamos acertado tudo para a alugar a boate e até o técnico do gerador de energia foi chamado para verificar as necessidades da festa. Mas nunca conseguíamos assinar o contrato, ela [a Cláudia] sempre dizia que ia falar com outros diretores”.  Igor acredita que o tom da conversa mudou quando ela soube que seria uma festa com temática gay.

Elza Silveira, sócia na produção da festa, diz que Cláudia não deu um motivo plausível para a não-realização do evento.

Segundo o Igor, Cláudia Palet informou dois dias antes da festa que não poderia mais ceder o espaço e que essa era uma decisão dos diretores. Teria alegado ainda que o clube da ASBAC sediaria, a partir daquele momento, somente de jantares e encontros menores por conta da estrutura. “Achei estranho ela falar isso, por que eu conheço a estrutura do local e sei que é um bom espaço para festas”, comenta.

O ParouTudo atenta para o fato de que uma festa gay já foi realizada com sucesso nesse espaço, por Fernando Toledo, na ocasião da FUN Circuito. Até o fechamento desta matéria, Cláudia Palet não atendeu ao celular para comentar a questão, apesar das várias tentativas.

Festa Life

Preparada pelo DJ Leandro Becker em sociedade com Kauê Santos, a Festa Life seria realizada no sábado (2), na Estância Gaúcha, mas também só ficou na divulgação. Seu cancelamento teve uma repercussão ainda maior e o motivo seria o mesmo: preconceito contra gays.

O caso ganhou visibilidade porque os produtores gravaram em vídeo, com o celular, uma das conversas com os responsáveis pelo local. A gravação está disponível no YouTube (clique aqui para ver).

Para o DJ, essa seria a prova de que houve discriminação contra o evento. “O evento já havia sido confirmado há um mês quando, um dia antes da festa, fomos informados de que não poderíamos mais fazer a festa”, diz. E ele garante ter provas de que houve mesmo preconceito. “Além do vídeo em que fica comprovada a discriminação, temos gravações telefônicas e e-mails entre o diretor da casa e a diretoria de outros Centros de Tradições Gaúchas”.

Jair, diretor da Estância Gaúcha, defende-se e diz que não houve preconceito. “Já fizemos outra festa para ‘esse’ público recentemente e não tivemos problemas”. O presidente da casa também informou que a Federação dos Centros de Tradições Gaúchas deu-lhe suspensão por trinta dias por ter realizado uma festa, segundo ele, “Fora das regras da casa”.

O ‘gaúcho’ explicou que eventos só podem ser realizados lá quando feitos por um associado (ou por alguém indicado por um associado) e que esse não era o caso de Leandro Becker. O produtor também não tinha contrato assinado – apenas um comprovante de pagamento da metade do aluguel – e não teve como arrumar outro espaço em cima da hora.

Becker anuncia que pretende entrar na justiça contra o espaço.

Apoio

O Grupo Estruturação, de Brasília, se mostrou interessado em apoiar os produtores da festa Life e, segundo o presidente da ONG, Welton Trindade, a homofobia nesse caso está muito clara. “Já marcamos uma reunião com os responsáveis pela Estância Gaúcha”, informa.

O representante da organização diz ainda que pretende levar o caso ao conhecimento de vários órgãos do legislativo e do executivo locais. “Não podemos permitir que o ocorrido caia no esquecimento. Toda a sociedade deve trabalhar junta, de forma orgânica, para que a discriminação não fique impune”, comenta.

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