Brasília tem passado nos últimos meses por uma efervescência festiva impressionante. São vários eventos que têm lançado no mercado um leva de novos produtores. O ParouTudo chama o fenômeno de ‘bolha de festeiros’, que tem inflado a cada semana com gente querendo fazer festas em clubes e mansões.
No início de novembro, a ‘bolha’ parece ter estourado e vários produtores desistiram seus eventos alegando que o público estaria cansado e que a concorrência tem atrapalhado a bilheteria. No meio dessa polêmica toda, dois eventos cancelados merecem destaque: a Elite Party e a Festa Life.
O motivo seria um desconforto entre os dois espaços de eventos com o ‘party people’ gay brasiliense. Em ambos os casos, os produtores alegam que tiveram que cancelar suas festas porque os estabelecimentos voltaram atrás e desistiram de alugar seus espaços por se tratarem de festas voltadas para o público.
Sem contrato assinado, os organizadores não conseguiram arrumar um plano B e cancelaram os eventos.
Elite Fashion Party
Marcada para a sexta-feira 1º de dezembro, a Elite Fashion Party aconteceria no espaço da antiga boate Macadâmia, no clube da ASBAC. Igor Andrade, produtor da festa, afirma que o evento não pôde ser realizado por conta do preconceito de uma das responsáveis pela locação do espaço, Cláudia Palet.
“Já havíamos acertado tudo para a alugar a boate e até o técnico do gerador de energia foi chamado para verificar as necessidades da festa. Mas nunca conseguíamos assinar o contrato, ela [a Cláudia] sempre dizia que ia falar com outros diretores”. Igor acredita que o tom da conversa mudou quando ela soube que seria uma festa com temática gay.
Elza Silveira, sócia na produção da festa, diz que Cláudia não deu um motivo plausível para a não-realização do evento.
Segundo o Igor, Cláudia Palet informou dois dias antes da festa que não poderia mais ceder o espaço e que essa era uma decisão dos diretores. Teria alegado ainda que o clube da ASBAC sediaria, a partir daquele momento, somente de jantares e encontros menores por conta da estrutura. “Achei estranho ela falar isso, por que eu conheço a estrutura do local e sei que é um bom espaço para festas”, comenta.
O ParouTudo atenta para o fato de que uma festa gay já foi realizada com sucesso nesse espaço, por Fernando Toledo, na ocasião da FUN Circuito. Até o fechamento desta matéria, Cláudia Palet não atendeu ao celular para comentar a questão, apesar das várias tentativas.
Festa Life
Preparada pelo DJ Leandro Becker em sociedade com Kauê Santos, a Festa Life seria realizada no sábado (2), na Estância Gaúcha, mas também só ficou na divulgação. Seu cancelamento teve uma repercussão ainda maior e o motivo seria o mesmo: preconceito contra gays.
O caso ganhou visibilidade porque os produtores gravaram em vídeo, com o celular, uma das conversas com os responsáveis pelo local. A gravação está disponível no YouTube (clique aqui para ver).
Para o DJ, essa seria a prova de que houve discriminação contra o evento. “O evento já havia sido confirmado há um mês quando, um dia antes da festa, fomos informados de que não poderíamos mais fazer a festa”, diz. E ele garante ter provas de que houve mesmo preconceito. “Além do vídeo em que fica comprovada a discriminação, temos gravações telefônicas e e-mails entre o diretor da casa e a diretoria de outros Centros de Tradições Gaúchas”.
Jair, diretor da Estância Gaúcha, defende-se e diz que não houve preconceito. “Já fizemos outra festa para ‘esse’ público recentemente e não tivemos problemas”. O presidente da casa também informou que a Federação dos Centros de Tradições Gaúchas deu-lhe suspensão por trinta dias por ter realizado uma festa, segundo ele, “Fora das regras da casa”.
O ‘gaúcho’ explicou que eventos só podem ser realizados lá quando feitos por um associado (ou por alguém indicado por um associado) e que esse não era o caso de Leandro Becker. O produtor também não tinha contrato assinado – apenas um comprovante de pagamento da metade do aluguel – e não teve como arrumar outro espaço em cima da hora.
Becker anuncia que pretende entrar na justiça contra o espaço.
Apoio
O Grupo Estruturação, de Brasília, se mostrou interessado em apoiar os produtores da festa Life e, segundo o presidente da ONG, Welton Trindade, a homofobia nesse caso está muito clara. “Já marcamos uma reunião com os responsáveis pela Estância Gaúcha”, informa.
O representante da organização diz ainda que pretende levar o caso ao conhecimento de vários órgãos do legislativo e do executivo locais. “Não podemos permitir que o ocorrido caia no esquecimento. Toda a sociedade deve trabalhar junta, de forma orgânica, para que a discriminação não fique impune”, comenta.