Em dois ofícios a sensibilidade é fundamental para o sucesso. Talvez por isso o jornalista e DJ Ulisses Campbell tenha conseguido se dar bem nas duas profissões que escolheu. Paraense de 34 anos, Campbell chegou a Brasília em 2001 para trabalhar como repórter do Correio Braziliense.
Como jornalista, ganhou três Prêmios Esso e um Embratel – dois dos títulos mais cobiçados da área no Brasil. Foi repórter do jornal Folha de S. Paulo e escreveu até para revista Marie Claire. Em 2003, para fugir do estresse da profissão, fez um curso de DJ e se lançou no mercado.
Hoje, Ulisses é super requisitado para festas particulares e o preferido do pessoal fervido do Itamaraty e dos jornalistas babadeiros de Brasília que o Parou Tudo não pode mostrar. Uma vez por mês, Campbell toca no Gate’s Pub, na festa concorrida chamada Cabaret, no sábado.
Batemos um papo bem descontraído com o jornalista e DJ. Ou seria DJ e jornalista? Ele comenta a cena de festas de Brasília, fala das festas independentes, da maré baixa da Garagem e – com sem o menor rabo preso – diz o que acha que funciona e o que precisa mudar na noite gay da cidade.
Em que área você atua no Correio Braziliense?
Sou repórter da editoria Brasil e faço matérias de Saúde, Educação, Meio Ambiente e Religião. Com a atual crise na aviação civil, só tenho feito matérias sobre atraso de vôos.
Com que matérias você ganhou os Prêmios Esso?
O primeiro ganhei com denunciando prostituição de crianças nas grandes cidades, em 1996. Depois ganhei, em 1998, com uma matéria sobre crianças que são mutiladas em carvoarias e o último com uma reportagem sobre os sem-terra.
Como o jornalista tornou-se DJ?
Em 2003, eu estava me estressando muito no trabalho. Um amigo me disse que iria abrir cursos para DJ aqui em Brasília. Fui lá e me inscrevi. Foi bem legal, mas achei incompleto. Fiz outro curso em São Paulo e gostei muito. Como tenho mais de 1.000 CDs singles em casa, que são próprios para DJs, comecei a me aventurar.
Onde você já tocou?
Tenho um amigo que diz que sou maior pé-frio. Todos os lugares que toquei fecharam logo em seguida. Comecei no Id Café, que funcionava na 209 Sul. Depois fui para a boate Heaven. Agora toco no Gate’s e em festas fechadas. Espero que o Gate’s não feche (risos).
O que você acha das festas gays de Brasília?
Acho que está se abrindo um mercado muito bom com essas festas grandes que mudam de endereço a cada edição, como as feitas pela Lili, Edu e Toledo. Elas sempre estão lotadas. Acho que a divulgação no site Parou Tudo ajuda a encher esses lugares. Quando a gente anuncia a festa do Cabaret no portal, a festa lota.
A gente percebeu que você dança muito ao pôr músicas nas festas.
Na verdade, sou muito baladeiro. Já aconteceu de eu não aceitar dar som em determinada festa porque havia uma outra balada que queria curtir. Quando estou pondo som aproveito para me divertir dançando. Sem falar que o DJ tem obrigação de dançar. Quando o público vê o DJ dançando, ele se sente entusiasmado. Essa interação é muito importante. Tem lugares que não dou som porque a cabine do DJ fica escondida, longe do público. Não vejo graça alguma. Quando toco no Gate’s, fico fora da cabine.
Por quê?
Na hora que o DJ está tocando, é fundamental que ele veja a pista inteira e seja visto. Muitos DJs tocam sem olhar para o público. Isso é um erro. Quando entra uma música, é preciso ver como o público reage. Na maioria das vezes, as pessoas fazem cara feia ou cara de que estão gostando. Esse é o melhor retorno que se pode ter. O DJ que não acompanha o ritmo do público vai esvaziar a pista se perceber.
O que você mais gosta de tocar?
Como faço muitas festas fechadas, costumo tocar o que o dono da festa me pede. Só não toco axé, pagode, funk e coisas similares. Meu repertório é amplo, mas toco mais anos 80 e 90 e eletrohouse atual. No Cabaret toca de tudo um pouco, mas meu forte mesmo são os anos 80 e 90. Musicalmente são as décadas mais ricas.
Você acha que essas festas gays independentes que bombam no fim de semana em Brasília vão fechar a Garagem?
Acho difícil. A não ser que o pessoal da Garagem se acomode. Acho que há público em Brasília para mais de uma festa no mesmo dia. O problema da Garagem é que o lugar não se renova. A gente vai lá na sexta e encontra, logo na porta, a mesma hostess. Lá dentro, está o mesmo público do fim de semana anterior. As músicas são as mesmas. Até a seqüência é igual. Aí o público se cansa e foge para outros lugares. Se eu fosse dono da Garagem, faria uma reforma geral no lugar, mudava tudo e reabriria com uma nova proposta musical.
O que você acha das festas independentes?
As duas festas são boas, mas as da Lili têm astral muito melhor. Já fui em festas do Edu que estavam cheias, com música boa, mas o astral estava baixo. Uma vez dei som numa festa assim para o pessoal do Itamaraty, no Clube das Nações. Quando o público não está pra cima, não tem música nem DJ que levante a galera. É impressionante.
Existe alguma semelhança entre o Jornalismo e a discotecagem?
São coisas totalmente diferentes. No jornalismo eu sigo um código de ética rigoroso, na discotecagem sigo a intuição. Trabalhar como repórter é matar um leão todos os dias. Tocar na noite é mais prazeroso e relaxante.
Qual a maior característica do péssimo DJ?
Tocar só o que ele gosta de ouvir.
Qual a maior característica do péssimo repórter?
Não saber contar uma história.
Qual a maior característica do excelente DJ?
Está em sintonia com o público da pista.
Qual a maior característica do excelente repórter?
O bom repórter tem uma paixão pela profissão que ele não adquire na faculdade.
Qual o melhor DJ de Brasília?
Entre os que conheço, ficaria com Telma e Selma.
O que você acha do som delas?
Meus amigos reclamam das coisas inusitadas que elas colocam, mas eu gosto muito do som das duas. Acho que a música no trabalho delas fica em segundo plano. Quando elas ousam, pode olhar para a mesa de som que elas estão fazendo performance. Acho isso bem legal. Sem falar que curto muito o som dos anos 80 e 90.
Qual o melhor repórter?
Neide Duarte, da TV Globo.
Receita para uma festa de sucesso?
Público interessante, música boa e bebida barata. Já percebi que festas que têm mais de um DJ são mais animadas. Quando muda o DJ, parece que a festa recomeça. As festas com apenas um DJ são aquelas que a gente vai embora mais cedo. Já repararam? Isso ocorre porque, por mais que o DJ tenha um vasto acervo, ele sempre será limitado.
Você já largou uma festa pela metade?
Nunca, mas já tive vontade. Certa vez eu estava tocando numa festa de gente rica. Era um empreiteiro se confraternizando com seus clientes. Quando eu pus uma música do Tim Maia, o dono da festa foi pessoalmente até a mesa de som e me pediu para não tocar músicas de negros nem músicas de brancos que ressaltem a raça negra. Fiquei tão revoltado que me deu vontade de sair. Mas a festa tava cheia, o público não entenderia e resolvi ficar. Até hoje me arrependo.
Tem outra história curiosa?
Certa vez toquei numa festa de formatura do pessoal ao UniCEUB. Tava tudo correndo muito bem. Um casal dançava animado em frente à mesa de som. Alguém na festa espalhou que o cara era gay e que a namorada era de fachada. O jovem ficou revoltado e começou quebrar tudo, gritando que não era gay. A festa era numa casa do Lago Sul e havia mais de 300 pessoas. De repente, a festa foi dividida em dois grandes grupos que se espancavam mutuamente. Até os seguranças apanharam. O revoltado destruiu toda a sala. Fiquei preocupado achando que ele iria quebrar meu som. Quando baixei o volume da música, o cara se aproximou da mesa do som com uma cara de quem iria detonar com o equipamento. Segurei o cara bem forte pelo braço e disse que ele podia quebrar tudo, mas que era para preparar o bolso porque o som custava R$ 8 mil. Ele pensou duas vezes e desistiu. Pois não é que ele subiu no telhado da casa e começou a jogar as telhas de barro na cabeça do pessoal da festa gritando que não era gay. A confusão acabou com a Polícia prendendo seis pessoas.