Censurados, mas não calados!
20.10.06 : : Jaques Jesus da ONG Acos, Ações Cidadãs em Orientação Sexual
Arquivo/ParouTudo

Jaques Jesus, da ONG Acos, comenta militância LGBT na periferia

24 de setembro de 2006. Parada do Orgulho de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBTs) de Taguatinga – primeira parada do orgulho na periferia de Brasília, organizada e realizada com aqueles que, formando a maioria do público na parada realizada no Plano Piloto de Brasília, nunca participaram de uma manifestação massiva pelos direitos humanos dos LGBTs na periferia.

Parabéns aos organizadores pelo acontecimento realizado! Daqui para frente, continuemos a pensar, conversar e trabalhar juntos para melhorarmos nossos pensamentos, palavras e ações!

As paradas do orgulho não são apenas grandes festas, são demonstrações públicas e populares da existência das pessoas homossexuais e bissexuais, de seus direitos, sem os quais esta república jamais poderá se considerar de fato democrática. E por que reclamar por direitos que já nos são garantidos pela Constituição? Porque não nos basta a igualdade meramente formal, apenas no papel.

Temos direito à vida, porém a cada três dias uma pessoa homossexual é assassinada no Brasil tão-somente pelo fato de ser homossexual, como confessou um homicida: “matei porque odeio gay”; em Brasília, apenas 3% dos crimes homofóbicos são denunciados, seja pelas vítimas temerem ser ridicularizadas em suas famílias, na comunidade, nas delegacias, seja porque a nossa moderna sociedade trata os LGBTs como pessoas dispensáveis, “se é que são gente”, outrora declarou um dirigente religioso.

Durante a Parada do Orgulho LGBT de Taguatinga, fui em nome da organização que represento, e acompanhado de outras entidades representativas da diversidade sexual, denunciar a paralisia do Governo do Distrito Federal em regulamentar a Lei distrital que combate a violência contra os LGBTs. Seis anos sem regulamentação!

Entretanto, alguns dos realizadores do evento, pessoas não ligadas à militância, agradeciam desbragadamente à atual chefia desse governo e a vários órgãos governamentais de segurança pública e tráfego pela realização da Parada.

Indignado, tomei a palavra para relembrar a todos que a Parada do Orgulho LGBT é realizada unicamente devido ao empenho e trabalho da própria população, organizada pelos militantes; relembrar que nossa integridade não pode ser vendida, tampouco o silêncio dos que gritam pela paz, pela justiça, pela própria vida. Reclamei pela urgente regulamentação da Lei distrital. Não nos bastam trios elétricos e banheiros químicos, precisamos da esperança que o Estado nos nega.

Minha fala, assim como a de outros representantes de organizações civis, como Caio Varela do INESC, foi abruptamente cortada por um dos realizadores do evento, intervenção claramente notada pela população. Defendidos pelos demais militantes e autoridades presentes, ficou patente a violência daquela ação, a qual repudiamos publicamente, e cujo repúdio renovo agora, por escrito.

Como podemos ser censurados por nossos iguais, pessoas violentadas pela homofobia como nós? Falta aí a leitura cidadã da realidade política em que nos encontramos, para que coletivamente possamos de fato nos impor ante às forças sociais que nos excluem, minimizam, vitimam, estereotipam.

O lema do evento era o de que, na periferia, todo dia é uma parada. Assim estamos, e continuamos a lutar pela igualdade de oportunidades, apesar das pedras em nosso caminho. Apesar dos problemas denunciados, o povo realizou a Parada do Orgulho LGBT de Taguatinga de maneira estupenda, sentia-se que ela era uma das mais calorosas festas da cidadania já realizadas em Brasília, e foi, provavelmente, umas das melhores paradas da História da cidade, e certamente ficará marcada como tal.

Essa mais uma prova de que os LGBTs organizados não devem nada a ninguém no que se refere a sua auto-organização para exigir o cumprimento dos seus direitos, para mostrar a sua força coletiva, para envolver a sociedade em geral nessa empreitada que beneficiará a todos.

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