Parada de Taguatinga: ganho para
a diversidade e inocência política?
01.10.06 : : Caio Varela e Kaká Verdade
Foto Fórum

Pergunta ao Governo do GDF: Qual é a prioridade dada às demandas LGBT?

No último domingo ocorreu a 1ª Parada do Orgulho LGBT de Taguatinga. A concentração iniciou-se às 15h. Aos poucos nossa comunidade foi aparecendo. À primeira vista, recordações da 1ª Parada do Orgulho de Brasília, quando reunimos cerca de 400 pessoas fantasiadas em sua maioria, vieram à mente, pois tendo nove anos passados, surgiram poucas fantasias. O que encontramos foi uma realidade de manifestação para além da redoma de vidro que circunda o Plano Piloto.

Importante foi a primeira palavra que nos veio, quando há alguns meses, Elker Barros (coordenador do evento) apareceu apresentando a proposta de realização da Parada. Qual a importância? Poderíamos discorrer laudas e laudas a esse respeito, porém nos concentramos na visibilidade, conscientização e politização.

A visibilidade, no caso específico de Taguatinga, foi crucial em dois pontos. Primeiro porque as paradas mostram nossa diversidade, desmistificam preconceitos, colocam a discriminação à prova e demonstram nosso orgulho, no sentido adverso à vergonha de sermos LGBT. Sofremos demonstrações de homofobia por parte dos “espectadores” de nossa festa. Na frente do SESC, moradores de um prédio jogaram dezenas de ovos nos participantes da Parada e, em outro prédio, uma moradora ficou jogando baldes com água.

Já outras pessoas assistiam e aplaudiam nossa manifestação. O segundo ponto foi a importância de se dar visibilidade às desigualdades sociais que perpassam nossa comunidade. É de extrema importância assumirmos que as diferenças de classes sociais afetam diretamente nossa comunidade, e por outro lado, mostra que não somos unicamente um grupo de burgueses, cheios da grana, que vivem em palacetes, cercados do bom e do melhor.

Em Taguatinga, mais uma vez, conscientizamos a população em geral, no sentido mais simbólico, mostrando que somos iguais a todos, que a homofobia é um crime que deve ser regulamentado e que cada vez nos organizamos e que vamos para as ruas lutar por nossos direitos.

A conscientização se dá também para nossa comunidade, pois estas manifestações, promovem uma injeção direta de auto-estima em nossas almas, fortalecem a quebra de preconceitos internalizados, que muitos lutam cotidianamente. Quantos de nós já se questionaram a respeito dos estigmas criados ligando a homossexualidade e a identidade de gênero ao “pecado”, à doença, ao desvio psicológico, à falta de caráter entre outros?

As paradas têm como característica essencial juntar a celebração do orgulho de sermos o que somos com a reivindicação de nossas demandas. Em tempos de eleições, é importante aproveitar a oportunidade para dar visibilidade e prestigiar políticos com uma plataforma política que contempla nossas reivindicações enquanto um grupos social altamente discriminado, seja nas ruas, por uma sociedade que não é estimulada a problematizar seus preconceitos, seja pelo próprio Estado, que não nos garante os mesmos direitos civis que pessoas heterossexuais têm. Políticos estes que têm em seus mandatos trabalhado efetivamente em prol de nossos direitos, até porque infelizmente ainda vivemos uma democracia representativa, onde elegemos nossos representantes, com poucos espaços institucionais de participação.

 

Retrocesso

Em Taguatinga, porém, isso não foi possível. Pelo contrário. Pela primeira vez, fomos proibidos até de saber oficialmente da presença de nossos apoiadores. A deputada distrital Érika Kokay foi a única que pôde subir ao trio elétrico, sem direito à fala ou menção no microfone.

Por outro lado, os militantes das diversas organizações LGBT existentes no Distrito Federal, tiveram oportunidade de falar, até porque foram apoiadores do evento, mas parte deles teve o som do microfone cortado no decorrer da fala. Foi um desrespeito, no mínimo, total falta de entendimento da democracia, onde cada cidadão tem o direito de se expressar livremente, mesmo que alguém não concorde com o discurso.

Alguns falaram em seus discursos da importância do orgulho de sermos quem somos, exigiam o reconhecimento pelo Estado das nossas relações homoafetivas e a afirmação da nossa identidade de gênero, e falavam ainda, sobre a importância que tem o nosso voto, voto consciente que pode mudar pra melhor a realidade de toda uma sociedade.

Este artigo é, por tanto, um protesto contra a censura, e uma denúncia do oportunismo e manipulação de que são capazes políticos sem nenhuma ética, tentando utilizar os movimentos legítimos para seus objetivos eleitoreiros.

Durante estes nove anos de paradas no DF, um grande desafio foi a captação de recursos para bancar as marchas. No primeiro ano, tivemos apoio irrestrito do GDF, a atual deputada Maninha, da Secretária de Saúde à época, e do então administrador do Plano Piloto Toninho, que viabilizaram a realização do evento.

Já no segundo ano, primeiro de Roriz, as organizações não tiveram qualquer apoio institucional e financeiro para as paradas. A partir daí as organizações LGBT do DF passaram a lutar por recursos governamentais para a efetivação de políticas públicas, dentre elas, as paradas.

 

Denúncia

No orçamento do GDF de 2006 conseguimos garantir o pequeno recurso de R$ 40 mil.  Seguimos todas as exigências (apresentação de documentos, projeto, levantamento de custos, etc) com dois meses de antecedência, mas o recurso não foi liberado e nenhuma justificativa nos foi dada para tal. Ou seja, o dinheiro está lá, é nosso, e eles não liberam. Cabe a pergunta ao Governo do GDF, Qual é a prioridade dada por eles para a nossa demanda, se é que existe alguma.

E o que explica a censura nas falas dos militantes do movimento LGBT no trio oficial da Parada de Taguatinga?

Parece que um dos trios foi bancado pela governadora, justamente o trio oficial. Por isso ninguém podia falar que Abadia e Roriz nada ou pouco fazem pela comunidade LGBT, por isso ninguém podia citar nome de políticos que fazem alguma coisa por nós, afinal estes compõem a oposição do atual governo do Distrito Federal.

Bancar um carro de som é muito fácil para aparecer bem na fita. Gastam-se cerca de R$ 5 mil de aluguel do trio e mais alguns trocados pra selecionar quem sobe ou não no trio e quem liga e desliga o microfone. O que de fato deveria ter sido feito era liberar os recursos que, voltamos a dizer, são nossos e estão lá nos cofres do GDF?

Ouvimos em alto e bom som no microfone do trio os incessantes agradecimentos a Maria de Lourdes Abadia e Laerte Bessa. Ela, como governadora, e ele, representante da polícia civil. Agradecer pelo quê? Pelo dinheiro não liberado? Pelo pouco, ou quase inexistente, efetivo da polícia na marcha? Pela ausência de recursos para banheiros químicos?

 

Agradecimentos

Por último, vale ressaltar, que nos discursos faltou mencionar verbalmente o apoio de outros patrocinadores, como a CUT, a sauna Soho, o Bar Barulho, a deputada Érika Kokay (que bancou os panfletos de divulgação) entre outros.

A Primeira Parada do Orgulho LGBT de Taguatinga mobilizou por mais de sete horas, milhares de pessoas. Estamos de parabéns! Foi um grande momento histórico, uma vitória!

Parabenizamos a organização do evento. Precisamos dessa garra e luta no nosso dia-a-dia de combate a homofobia e promoção da cidadania de nossa comunidade. Os anos têm mostrado nosso crescimento organizativo e político. Que venha a 2ª Parada de Taguatinga, e que surjam outras, em Planaltina, no Gama, enfim, quanto mais eventos de luta pelos nossos direitos melhor.

Valeu Elker e todos e todas que colaboram com o evento.

* Espaço cedido a leitores do ParouTudo e líderes engajados com a luta pelos Direitos Humanos e Cidadania LGBT.

Caio Varela é da coordenação Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos

Kaká Verdade é diretora Executiva e assessora em Direitos Humanos da ONG Coturno de Vênus.

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