Uma criança pode ver 2 homens se beijando?
31.07.06 : : Fabrício Viana
The Kiss/Thesaint
Nunca minta ou omita
qualquer informação
das crianças


O primeiro evento gay realizado em um parque temático em São Paulo anos atrás foi sucesso absoluto, principalmente na aceitação de funcionários e do público do parque que acabou levando a família sem saber que o dia seria "gay".

Claro que o evento não agradou a todos e pouquíssimas famílias reclamaram. Uma das indignações que acabei escutando foi "Meu filho é uma criança, não pode ver dois homens se beijando!"

Não sei como é isso aos olhos dos outros, mas pra mim, que sou bacharel em psicologia e conheço todo o processo psíquico do ser humano, principalmente de uma criança, achei que várias coisas deveriam ser esclarecidas. E porque não na forma de um artigo? Onde poderia ser lido e recomendado para muitas outras pessoas?

Voltando a indignação do pai acima, eu pergunto, será que é tão terrível para uma criança ver dois homens se beijando? Será que ela realmente não entenderia?

Antes de responder, vamos a dois exemplos.

O primeiro deles é sobre uma amiga minha e do meu namorado, heterossexual simpatizante e que freqüenta balada GLS sempre que pode com a gente e com um de seus familiares que também é homossexual. Ela tem uma filha de 7 anos e sempre quando vem em casa insiste em dizer a sua filha que nós dois somos primos e nunca namorados. Até ai ela é a mãe e acredita estar educando corretamente sua filha.

O segundo exemplo é de outro amigo, estudante de direito que pretende trabalhar com homossexuais quando se formar. Certa vez me contou que seu filho de 5 anos ao ver ele conversando com um casal gay sobre união civil chegou em casa e perguntou se os dois eram namorados. O pai respondeu que sim. O filho perguntou se isso poderia. Ele então disse que sim, homem com homem e mulher com mulher também namoravam e viviam juntos, mas que a sociedade não falava muito sobre isso. Seu filho entendeu este simples, sincero e verdadeiro esclarecimento e encerrou o assunto. Talvez volte ao assunto futuramente de forma mais complexa, mas sua curiosidade foi sanada naquele momento de forma correta.

Bem, entre um exemplo e outro podemos observar que a diferença entre as duas atitudes é que no primeiro caso a mãe, por mais "simpatizante" que seja e desencanada com a homossexualidade, tem medo de contar a verdade a sua filha. Talvez porque no fundo acredite (sem ter total consciência disso) que a homossexualidade ainda é algo ruim e inaceitável. Ao ponto de esconder de sua filha e projetar seu medo sobre ela. Afinal, “nós somos primos e nunca namorados”.

Esse medo também remete a outro. Se homossexualidade não é apenas uma vertente da sexualidade humana, é algo negativo e ruim, tenho medo que minha filha se torne homossexual quando crescer, principalmente se souber da verdade dos dois ou mesmo ver duas pessoas do mesmo sexo se beijando.

Esse é o medo de muitos pais. Medo de uma criança ver duas pessoas do mesmo sexo se beijando e querer fazer a mesma coisa quando crescer. Pois bem, eu nasci e cresci vendo casais heterossexuais se beijando na rua, na televisão, em parques e em vários lugares, no dia e na noite, várias vezes por dia, durante mais de 20 anos, e nem por isso tive desejos ou vontades "heterossexuais".

Esse meu exemplo é suficiente para dizer que uma criança será homossexual ou não, independente de qualquer outra coisa. O que vai diferenciar é que ela sofrerá mais ou sofrerá menos de acordo com a aceitação dos pais sobre os desejos que sente por pessoas do mesmo sexo. Dependendo do caso, nem precisará sofrer.

Um fato é certo. Devemos sempre ser sinceros com as crianças em suas perguntas. Principalmente sobre a sexualidade humana. Neste momento lembro de um caso apresentado no livro "O desenvolvimento da Personalidade" de Carl Gustav Jung onde ele descreve todo o processo psíquico de uma menina de 3 anos quando sua avó lhe explica que todo bebê é trazido por uma cegonha - fábula popular contada por milhares de pais "mentirosos" por todo o mundo. Nas primeiras páginas do livro, Jung descreve como a menina descobriu por associações próprias a verdade. Levou dois anos para imaginar a maneira correta de como os bebês são criados, mas no final, quando fala do assunto com sua mãe, diz: "os bebês são trazidos pela cegonha!". Ela já sabe a verdade mas pensa: "porque irei falar a verdade aos adultos se eles mentiram pra mim o tempo todo?

Concluindo, o medo dos pais sobre uma criança ver ou saber sobre homossexuais ou casais homossexuais é apenas uma transferência deste medo sobre elas. Caso a criança seja educada corretamente e com informações sempre verdadeiras, ela terá uma maior consciência do mundo em que vive, não terá seus pais como mentirosos (mais cedo ou mais tarde ela acabará descobrindo a verdade) e poderá se desenvolver da melhor forma possível.

Caso tenha alguma dúvida sobre como educar seus filhos corretamente, principalmente quando o assunto for sexualidade humana, consulte um profissional especializado (psicólogo, psiquiatra, educadores, etc) que entendam profundamente deste assunto. A regra básica é "fale sempre a verdade" juntamente com "Nunca minta ou omita qualquer informação".

Uma criança educada corretamente se tornará um adulto saudável e pronto para a vida com todos os momentos bons e ruins que ela venha a oferecer. Pense nisso.

Fabrício Viana é bacharel em Psicologia e autor do livro que fala sobre a homossexualidade chamado "O Armário - Vida e Pensamento do Desejo Proibido". Visite o site do livro: http://www.oarmario.com

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