Não entendo esta mexicanização que existe entre nós gays. A capacidade de fazer de uma gota d’água, um mar de lamentações. A carência excessiva que é criada entre todos. Encaremos a realidade: somos, muitos de nós, uns mimados. Sem generalizar, pois não sou bom nisso.
Mas por que tanta carência? Necessidade de constante atenção? Ir do Oiapoque ao Chuí emocional em segundos ao ouvir um simples “não” ou saber que aquele ficante lhe fixou em um passado bem distante, sem possibilidades de algo mais.
O chão se abriu? Celulares à mão! MSN, Orkut, Flog, Blog e outras infinitas formas de chamar atenção... Você espalha que está triste, deprimido, pensativo e os vários eufemismos para a mesma coisa: querer os holofotes dos olhares em você. Em seu papel de vítima.
Por que tantos gays simplesmente se vitimizam? Chega a hora dos adjetivos-Maria-do-Bairro: incompreendido, banalizado, usado, criticado, avacalhado, desprezado, e sempre, sempre com a construção de um script melodramático. Você procura até encontrar um adjetivo, um questionamento. E um dos principais deles: “por que sou o que sou?”.
Então, para não chegar ao auge metafísico do “ser ou não ser [gay], eis a questão”, decide e bate o pé dizendo que é diferente, um mutante, que tem um mistério. Em tempos de se procurar enigmas em todos os lugares, desvendar segredos em pinturas, manuscritos e ver o diabo na tríade repetição do número 6 (até porque gay antenado absorve tudo que é moda e novidade), acaba descobrindo, nesse burburinho psico-existencial, o quanto o culto à utilização de máscaras sociais se faz presente. Para cada ocasião uma máscara, para cada momento um falseamento da realidade.
Você, perante seu arsenal de possibilidades, é o “passivo guloso”, o “ativo insaciável”, o “versátil total flex”. Usa e põe máscaras com uma facilidade incrivelmente bizarra. Pensando esconder aquele lado “podre”, aquilo que é para ser posto debaixo do tapete da consciência. Suas fraquezas, emoções. A espontaneidade seria uma fraqueza? O ser verdadeiro é um defeito? Admitir-se mais pessoa que purpurina é tão ruim assim?
Quebre a máscara! Arrisque! Mostre o humano por trás de tanta parafernália. O enigma pode ser frustrante ao se descobrir que a máscara esconde alguém que não compreende até hoje quem é. Alguém que se prendeu a tantas mesmices obtidas dos outros que não entende o que é ser natural. Cópia de cópias de cópias, chegando a um ponto em que não se sabe quem é o original diante da diversidade de xerox-humanas.
Porém, como é difícil largar o papel em que se está acostumado a atuar, não é mesmo? Principalmente quando você faz sucesso sendo a figura que é. E se apóia nessa imagem que, mesmo em putrefação social, é a única que aprendeu a ser. Aí surge a carência novamente. O vazio de descobrir que se vitimizar, se ver como um mutante, um ser diferente, é a arma de defesa encontrada por muitos para atenuar os problemas.
A perda foi grande? Doeu? Pode até ser. Mas do que adianta colocar uma máscara de ferro acreditando que poderá se blindar de tudo? Sofrer engrandece a alma, já diziam. Queria que essa frase fosse mais brega do que verdadeira. Brega? Piegas? Um clichê? Não sei, se for pra ser, seja você, mesmo se for um clichê.
“And I’ll survive, I will survive.”