Ah, quer saber?! As
unanimidades me irritam!

28.06.06 : : Andréa Stefanie
Fotomontagem/ParouTudo
Ainda bem que a Copa do Mundo só acontece de quatro em quatro anos

Prólogo

A Copa do Mundo de Futebol é realmente um desafio e tanto. Principalmente para quem odeia futebol, barulho, bagunça, desordem, algazarra e até violência. Eu, como boa desafiadora do que é popular e comum, sofri na pele os agouros de agüentar 30 dias ininterruptos de jogos e disputas que, ao meu ver, são absolutamente sem sentido. Por isso não me furtei à possibilidade de dissertar sobre o tema e sobre o que penso.

Pessoas, como eu, que acham as Copas do Mundo imbecis e sem graça são poucas, mas estão criando coragem de gritar seu desamor ao esporte. Uma amiga, que também odeia partidas de futebol, disse que não consegue entender o motivo pelo qual a copa arrebata tantos nacionalistas inflamados, já que os 11 jogadores e mais os 13 reservas ganham em torno de muitos milhões de dólares apenas para jogar. Passes e contratos milionários. Enquanto a massa, a população, passa fome. É realmente um mistério...

Não pretendo, nesse pequeno tratado à liberdade de expressão, às idéias incomuns e não-populares, discorrer acerca do que leva as pessoas a saírem de suas casas e intimidades e bradar a paixão insana por todas as vielas e recôncavos. Isso já foi feito. Nem tão pouco fazer um levantamento histórico da importação inglesa dessa “mania” para ilustrar o servilhismo e assimilação do brasileiro. Pretendo tão e somente expressar meu ponto de vista sobre o que considero uma besteira, com cara de colonização de massa. Se você, meu assíduo leitor, tem estômago forte, este é o artigo para você!

Para sua melhor compreensão o artigo foi dividido em várias partes. Segure-se na cadeira do computador e deleite-se .

Capítulo Primeiro: A preparação.

O inferno começa cedo: mais de 4 horas antes de um jogo do Brasil. Meus vizinhos se esmeram em competir para ver quem faz mais barulho. Som altíssimo. Televisores fora de casa. Gritaria. Apitaço e buzinas. Tudo junto para não deixar duvidas de que é uma unanimidade. Verdade absoluta. E vá reclamar para você ver o que acontece. Peça somente para baixar um pouco o som. Ninguém vai te ouvir. E, se ouvir, vai falar que hoje tudo é liberado. Mesmo que estoure seus miolos. Tudo é permitido. Não demorará a surgir espancamentos e assassinatos “liberados” ou “permitidos”, nos próximos anos, em nome do “timão de ouro”.

Capítulo Segundo: Uma “Paixão Nacional”.

E por falar em “paixão nacional”, vejamos. Creio que estamos diante de uma “imposição nacional”. Já que os comportamentos e manifestações pró-futebol não são apenas aceitáveis, mas socialmente estimulados desde cedo. Toda criança sabe. É um atentado à honra da Nação não participar disso. E ai de quem ir contra essa maré de repetições. O rechaço social chega, pesadamente, à sua cabeça, com frases do tipo: - “Como é que você pode não torcer pelo Brasil?!?” – condenam. Os olhares de reprovação vêm juntos. Pensar diferente é estar “frito”, às vezes, literalmente!

Paixão nacional, virgula: eu não gosto! E tenho certeza que não estou só. Pode ser da maioria, mas num Estado Democrático de Direito, a maioria não significa o todo. Significa apenas que há divergências e que elas fazem parte da diversidade nacional. Minorias podem depor um Presidente, guardem isso!

Capítulo Terceiro: Estado Capitalista de Direito

O que grande parte das pessoas não sabe ou fala, é sobre o enorme poder de mercado que gira em torno da Copa do Mundo. O refrigerante em que “tudo torce pelo Brasil”, a cerveja que “trás outra estrela pra cá”, o cartão de crédito que é “o patrocinador oficial do Brasil na Copa”. Quem é que ganha, realmente, com os jogos? A venda de produtos e serviços! Tudo que está associado à marca é alvo de muitos milhões de dólares e recebe outros tantos milhões. Você tem idéia do tamanho da bolada que é movimentada pela Copa? É claro que não! Se soubesse não consumiria um palito dental. Acredite, marcas podem tudo. E ainda tem gente que , orgulhosamente, ostenta a camisa oficial/falsificada “número 9” (Ronaldo) ou “8” (Kaká). Acha que está abafando. Quem é o vitorioso? O mercado! Tudo que leva a imagem do “quadrado mágico” que vende feito água. Imagens e nomes. É isso que a mídia e seus demônios ditatoriais incutem nas cabeças das massas. As pessoas deveriam ter uma visão mais cartesiana e menos romantizada das partidas...

E o incrível é que valores mensuráveis e importantes , como: o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), quantidade de crianças até 6 anos fora das escolas, justiça social e distribuição de rendas, não são nada. Meros números. Enquanto acontece o espetáculo dos jogadores, o País desce a ladeira. Desenvolvimento estanca. As crianças evadem das escolas. Os mais necessitados definham. Mas quem se importa? Foi uma goleada de 3 a zero!

Daí, pode-se pensar num ponto positivo: a união das classes sociais com o único objetivo de confraternizar e comemorar as conquistas verde/amarelas. Nesses dias – dizem - não há pobres ou rico, assalariados ou milionários, todos são “iguais” na “paixão” e têm pensamentos iguais de vitória do time brasileiro sobre os demais. Não quero jogar um balde de água fria, mas, união de classes sociais é uma grande farsa. Só acontece nas novelas das 8h. O pobre vai se sentar com um miserável, como ele. O rico vai assistir na sua TV de plasma com um outro de igual poder aquisitivo.

E tem mais.

Aqui em Brasília, num dos últimos jogos, ocorreram 80 acidentes de carro e mais de 4 mortes após a vitória do Brasil. Isso sem falar nos homicídios, roubos, furtos. Sendo assim, acho que é melhor o Brasil perder. Talvez assim não morra ninguém e as ruas sejam seguras para se andar. Noutra partida, as avenidas de Brasília estavam absolutamente desertas, às 13h de uma terça feira. Órgãos da União, estados e municípios fechados oficialmente. Lojas trancadas. A Capital da República parou. Sabe o que isso significa para a economia do País? Prejuízo na certa!

Capítulo Quarto: Ah, quer saber?! As unanimidades me irritam!

Descobri que não ser unanimidade é um crime. As pessoas não têm coragem de assumir que odeiam futebol e que pouco se importam se o Brasil ganhar ou voltar para casa. Eu assumo: odeio futebol e não me importo de ver o Brasil voltar para casa de cabeça baixa e humilhado. Até prefiro. Afinal, como já relatei antes, é menos barulho, arruaça, perigo para enfrentar nas ruas...

Sem contar os shows posteriores. Nesses momentos entram em cena as “latinhas voadoras”. As latas de cervejas. Essas que a gente bebe e joga em qualquer lugar. Elas viram armas de guerrilha e as pessoas, alvos prontos para ser acertados. Eu presenciei algumas cenas com os “alumínios flutuantes” logo após as vitórias do Brasil. Quase fui alvo. Bem, poderia ser pior se fossem garrafas.

E como já dizia Nelson Rodrigues - outro fanático por futebol: - “Toda unanimidade é burra”! Ele, às avessas, também devia referir-se a sua própria paixão. Logo, a unanimidade que gosta de futebol também é burra. Conclusão: generalizar dá nisso!

Para pensar um pouco.

Por último, vamos pensar com seriedade. É você quem está jogando? O que vai mudar na sua vida com o hexa campeonato do Brasil? Você terá aumento de salário? Mudará de vida? Ganhará os milhões que o Ronaldinho ganha? Se você respondeu negativamente a pelo menos uma dessas indagações e mesmo assim leva tudo isso a sério, você, possivelmente, é candidato natural a graves problemas mentais. Sugestão: esqueça um pouco o futebol e pense mais em como mudar seu país.

Nacionalismos à parte, eu prefiro discursar sobre: mercado externo; imagem do Brasil no Exterior; política; ou bolsa de valores. Temos muitos outros produtos de exportação genuinamente brasileiros e repletos de valores nacionais para divulgar lá fora. Assim, exercito o amor ao meu país de uma maneira bem mais inteligente. Tudo, menos a bobagem dos 11 ricos e incultos imbecis tentando colocar uma bola dentro de uma cerca de redes.

Fico contente e aliviada que a Copa do Mundo só aconteça de quatro em quatro anos.

Andréa Stefanie

*Artista. Escritora. Militante dos direitos humanos. Mulher transexual. Feminista. E contrária ao futebol e às idéias alienantes e de massa.

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