02.05.06
A família brasileira está mudando. Segundo o IBGE, o Brasil tem 30% de lares chefiadas por mulheres. Mas, o que significa, de fato, a expressão “chefiadas”? O que esse dado revela é que as mulheres estão trabalhando mais. Não se pode derivar daí que haja uma administração mais igualitária das casas, tampouco que estejamos diante do “matriarcado”. Longe disso. No entanto, pode-se inferir que a maior participação das mulheres no mercado de trabalho e o controle financeiro de suas casas pode abrir boas possibilidades para se pensar as mudanças que a noção de família vem sofrendo. As transformações vão em múltiplas direções e ultrapassam os limites da família heterossexual. A idealização da família com divisões binárias das tarefas a partir das diferenças sexuais, (ao homem a rua, à mulher o lar), a imagem do lar como espaço de conforto espiritual, do lócus interdito aos conflitos e as disputas, são imagens idílicas que guardam pouca conexão com a realidade e que tem como função restringir a noção de família aos marcos da heterossexualidade. Outra imagem recorrente é a que constrói a família como a materialização da soberania da natureza: “um homem e uma mulher, dando continuidade à espécie, a complementaridade perfeita”. Ou seja, seria na heterossexualidade que essa instituição encontraria sua coerência e unidade. Nesse início de século, é visível a consolidação de movimentos sociais em torno da liberdade sexual. O questionamento da heterossexualidade como única possibilidade dos sujeitos viverem suas sexualidades e a despatologização das homossexualidades têm desdobramentos na concepção de família. Gays e lésbicas reivindicam o direito à parceira civil e a adotarem crianças. Casos como o de Maria Eugênia, que conseguiu na justiça a guarda do filho de sua ex-companheira, Cássia Eller, passam a constituir uma base jurisprudencial cada dia mais sólida. Mas as disputas não se limitam ao campo das definições, têm desdobramentos práticos. As “novas famílias” abarcam uma considerável pluralidade de arranjos afetivos. Nos últimos anos, os cientistas sociais passaram a interessar-se mais por essas “novas famílias” e começaram a dar visilibilidade no mundo acadêmico a uma gama de definições, negociações, disputas em torno da “família”. No final do ano passado, cientistas sociais reuniram-se em Florianópolis para discutir pesquisas que elegem essas novas configurações como objeto de estudo. Tivemos a oportunidade de conhecer histórias de vidas de homens e mulheres que se definiram como heterossexuais, constituíram famílias e romperam com a heterossexualidade e passaram a viver relações homossexuais. Dilema próximo vive os sujeitos que, após terem suas famílias estruturadas, assumem a transexualidade. Para os/as transgêneros/as (transexuais e travestis), o conflito está no gênero e não fundamentalmente na sexualidade. Querem ser reconhecidos socialmente como membros do gênero com o qual se identificam. São recorrentes histórias de homens e mulheres biológicas que viveram relações heterossexuais duradouras, tiveram filhos, mas que, em determinado momento de suas vidas, os conflitos com o gênero tornaram-se insuportáveis, levando-os a darem início ao processo transexualizador (terapia hormonal, roupas do gênero identificado, cirurgias de transgenitalização e mudança do nome nos documentos). Essa família, após o processo transexualizador de um dos seus membros, será uma família gay? E a criança que tem nos seus documentos o nome do pai ou mãe, passará a ter dois pais (caso em que a mãe é transexual) ou duas mães (neste caso, o pai seria transexual)? Pesquisadores que estudam a “família”, para além dos marcos heterossexuais, se deparam com questões inusitadas, ausentes em estudos tradicionais. Trânsitos identitários, deslocamentos, conflitos e rupturas que podem parecer confusos, existem em profusão nas relações sociais e começam a ser eleitos como temas por cientistas sociais e o primeiro resultado é a constatação de que o conceito de família é povoado por uma multiplicidade de famílias.
Comente.
|
||||||||