
Eduardo Braga, 30, é um cara bonito, alto-astral e educado. Já Érika Braga é exagerada, ousada e poderosa. O que esses dois têm em comum? O corpo – muito bem cuidado por sinal – do cabeleireiro e maquiador nascido em Uberlândia. Em tempos de falência múltipla da cultura drag na cidade, Érika (que não é a primeira personagem inventada por Duda) nasce para causar.
"Aprendi a me maquiar com uma tia muito querida que é cabelereira há 30 anos e de uma brincadeira nasceu um profissional", conta. Perfecionista, ele fez um curso de cabelereiro aos 13 anos de idade e desde então não fica sem cortar, colorir e experimentar as novas idéias nos cabelos. Em seu currículo é possível encontar os registros das passagens pelas badaladas academias Tony Guy e Vidal Sanson e pelos top salões da cidade de Ricardo Maia e Hélio Nakanishi. Atualmente Duda trabalha no espaço de Ivan David, no Manhattan Hotel.
O mineiro teve uma criação humilde e muito conservadora dentro de uma família evangélica. "Foi complicado para eles aceitarem a minha orientação sexual. Eles pegaram bastante no meu pé e me forçaram a freqüentar a igreja, mas uma hora eu atingi o meu limite". Hoje as relações estão mais tranqüilas, mas ele nem pensa em voltar para a cidade natal. "A melhor coisa que fiz na vida foi vir para Brasília, sou apaixonado por isso aqui", declara.
Érika ainda não fez show, mas o ParouTudo já adianta que ela está doida para aparecer: "Fui convidada para me apresentar na boate Blue Space e estou vendo se vai rolar mesmo. Se acontecer, vou fugir um pouco desse padrão bate-cabelo e tentar resgatar um pouco dos primeiros transformistas que seguiam um linha mais glamurosa e até clássica", diz.
Enquanto Duda dava forma a Érika em uma mansão no Lago Norte, o ParouTudo bateu um papo com ele/ela:
Porque você começou a se montar?
Quando comecei a freqüentar festas lá em Minas ainda, com 17 anos, vi uma drag maravilhosa. Era o Léo Áquilla e ele estava fazendo um show de vitrine viva. Me lembro até hoje do figurino, uma peruca chanel verde-alface e a roupa era toda verde com uma armação de metal. Parecia um pé de alface gigante, mas era linda. E eu me apaixonei, fiquei com a aquela imagem na cabeça. Quando eu tinha 19 anos, teve a Festa das Montadas em uma boate e eu implorei para a minha tia cabelereira me ajudar com a produção para poder ir. Depois de 6 meses teve um concurso de novos talentos nessa mesma casa e eu ganhei. Aí fui contratado.
Mas nesse época a Érika não existia. Qual foi sua primeira drag?
Minha primeira drag queen foi a Talyska, uma loura. Ela apareceu em 1997 e foi bem durante 6 anos. Isso já tem uns 10 anos e eu ainda morava em Uberlândia. Começou como uma simples brincadeira e foi ficando sério. Trabalhei profissionalmente com a Talyska em algumas casas noturnas, viajei bastante e fiz vários editoriais de moda como drag. Acabei matando ela porque era um personagem antigo, meio ultrapassado em relação à moda.
Como a Érika nasceu?
Eu não consegui conciliar a história da drag queen com o ritmo da minha profissão em Brasília. Fazia uns 5 anos que eu não me montava, até que viajei para Uberlândia e alguns amigos me pediram para fazer uma produção. Então acabei voltando a tomar gosto pelo negócio. Há uns dois meses fiz umas fotos e criei uma conta especial no Orkut. O pessoal gostou bastante e eu comecei a receber convites para aparecer em festas.
Qual foi sua inspiração para criá-la?
As top models, divas da música, as mulheres que eu admiro e conheço servem de inspiração... Eu queria que ela fosse uma personagem nova, sem os aspectos da caricatura e da travesti. Então eu inventei a Érika como um ícone fashion que segue as tendências mais atuais, ela é forte, moderna e chic. Fui coletando informações e imagens de revistas de moda, catálogos de marcas, de amigos stylists, desfiles e misturei tudo no liquidificador. Até o nome tem um diferencial, meus amigos falavam que Talyska era nome de remédio controlado e queriam que eu mudasse de qualquer jeito para alguma coisa mais comercial. Depois de muita discussão, escolhi Érika.
Quanto você gasta para produzir um personagem?
Isso é muito relativo. Falando de tempo: contando com maquiagem, colocar cabelo, acessórios, gasto cerca de 1h40. Em termos financeiros, depende do estilo da drag. Hoje é possivel encontrar nas lojas coisas bacanas e com um preço bom. Eu consigo montar um figurino luxuoso com R$ 100. Mas gasto também R$ 500 em uma produção, para show que tem que ter roupa e sapato sob medida já gastei até R$ 2 mil. A drag queen é uma caricatura feminina, uma espécie de exagero supremo da mulher com uma boa dose de diversão.
O que acha da decadência da cultura drag em Brasília?
Existe uma decadência, Brasília não tem muitas drag queens, ou pelo menos, drags bonitas e bem produzidas. E também não existe aqui uma valorização das performances. Então acho legal poder apresentar essa possibilidade para a cidade, até para dar coragem para outras pessoas colacarem uma peruca, arrasarem na maquiagem e voltarem para a noite. Eu percebo que o pessoal da cena GLS anda muito carente de uma drag poderosa e por isso tem muita gente disposta a me ajudar com a Érika e eu estou aberto a sugestões.
Já foi vítima de preconceito por ser drag, ainda mais sarada desse jeito?
Nunca me atacaram, mas o preconceito existe dentro da própria cena GLS. Tem gente que acha forçado e tem aquelas pessoas que não gostam mesmo, mas é muito raro me maltratarem. Sei separar muito bem a personagem do profissional Duda Braga. A Érika não influencia no meu dia-a-dia. Sou super respeitado no trabalho pelos colegas e pelos clientes. A receptividade do pessoal é muito boa, tem gente que elogia a maquiagem, a atitude, ser drag é sempre uma festa.
É difícil arranjar namorado pelo fato ser drag queen?
Antigamente era quase impossível arranjar namorado pela questão do ciúme. Drag é um personagem muito assediado e ninguém entendia que acontecia uma separação da pessoa e do momento profissonal. Hoje isso já mudou.
Como você cuida do corpinho?
Adoro correr e amo tomar sol. Estou sempre bronzeado. Quando não trabalho, procuro sempre cuidar do corpo, me alimentar bem e ter uma boa noite de sono. Não é só pela vaidade, mas também porque ser cabelereiro consume muito da minha energia (risos).
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